sábado, 25 de junho de 2011

Choque cultural atrás de choque cultural

Estive na praia nesse final de semana. A praia é um ótimo lugar para observar os costumes individuais e coletivos. 

Alguns conceitos não existem em Israel. Dois deles podem ser vistos na praia, o primeiro não é exclusivo da praia, e se estende por toda a maneira de viver do israelense. O israelense não tem vergonha de praticamente nada. Eles se vestem como querem, eles se comportam como querem, eles usam o cabelo como querem.

Não é incomum, portanto, você ver na praia as pessoas usando os mais diferentes trajes de banho. Passando de cuecas e maiôs, até rapazes de fio dental. Os cabelos então, há de tudo. Podem imaginar que o que vocês pensarem tem. E por aí vai.

Vovô vestindo cuecão.

Outro conceito que não existe é o de farofa. O israelense vai pra praia com café, almoço e janta. Leva o violão, narguila, cadeiras, barraca, cangas e similares e o que mais couber no carro. Ou no ônibus, em muitos casos.

Olha o tamanho da mesa que os caras armaram.

Chegamos na praia e tratamos de achar um lugar espaçoso. Levamos também nossa barraca, cadeiras, uma espécie de tapete de palha e alguns salgadinhos. O lugar era confortável. A nossa frente estava uma família bem grande. Segundo o Maurício eles sempre estão por ali. 

Atrás de nós havia um grupo cuja média de idade das pessoas devia ser 35 anos. O grupo era grande... e barulhento. Havia particularmente um personagem que é típico por aqui. O cara é o esteriótipo do fanfarrão israelense, também chamado de arsi, uma importação do árabe cuja tradução não sei precisar. 

Apesar de não saber a tradução, descrevê-lo é bem simples. Falam alto, mexem com todos que passam perto deles, estejam as meninas acompanhadas ou não, normalmente usam o cabelo bem baixo, escutam músicas de gosto duvidoso e sempre com o som alto, normalmente os carros são "tunados", ou pelo menos eles acham que é.

No grupo atrás da gente tinha um camarada como esse. Ele iniciou todo tipo de incômodo possível. Todos que passavam na praia e ele conhecia, ele fazia questão de cumprimentar, aos berros. Toda hora pegava o violão e entoava as músicas (de gosto duvidoso) também aos berros. Quando não tocava, acompanhava as pessoas, obviamente aos berros. 

A música típica que se escuta é a mizrahi (oriental), que tem forte influência dos países vizinhos. Eu fico me imaginando se isso veio com as imigrações, ou se ainda hoje a influência chega de alguma maneira. Eu achando que aquilo era um incômodo enorme, não imaginava o que estava por vir. 

A família que estava na nossa frente, de vez em quando, discutia por alguma coisa. Tinha uma mulher invocada que dava ordens e distribuía broncas para todos. Enquanto eu olhava estarrecido para essa cena, cinco crianças começaram a jogar bola. No meio de todo mundo. Não demorou tanto para elas começarem a incomodar a todos em volta.

Num pique que eles deram, uma criança sujou todo o cabelo de uma menina de areia. A única reação da mulher foi levantar rapidamente e dar um sorriso de canto de boca. Sinceramente, eu não entendi isso.

Não demorou muito para a bola começar a bater em todo mundo, inclusive em mim. Quando a bola veio em nossa direção, eu travei e não devolvi. Quando uma criança veio perto, avisei pra jogar longe, não deu em nada.

Logo depois, um dos garotos se preparou para cobrar uma falta, fez o montinho, posicionou a bola, e quando estava prestes a chutar, um outro veio de carrinho e tirou a bola do lugar. O menino que ia bater a bola era maior, e quando viu que o outro garoto tinha feito, não pensou duas vezes e deu um chutecom gosto  na costela do menor, que havia dado o carrinho.

Obviamente o garoto menor não gostou, levantou e foi tirar satisfação. A situação ficou naquela iminência de briga, o pai do menor levantou e foi intervir. Chamou o responsável pelo outro garoto, que não sei se era pai ou tio (tinha cara de tio).

O tio do garoto que chutou o outro teve a cara de pau de dizer que os garotos brincavam de boxe tailandês. Ele parecia estimular o sobrinho e ainda levantou e foi demonstrar alguns golpes. Eu achei aquela desculpa completamente surreal.

E não parou por aí. A história teve um desfecho de ouro. O tio, demonstrando as habilidades, colocou uma cadeira na frente, posicionou o sobrinho depois da cadeira, e por cima da cadeira desferiu um chute no sobrinho. O idiota errou a quantidade de força e bateu muito forte. Dali em diante seu protegido andou mancando com a mão na coxa.

Falam que o israelense tem chutzpá (rutz-pá), que pode ser traduzido como insolência ou audácia, dependendo do ponto de vista, mas na minha opinião, o israelense não tem educação. E não é que tem má educação, ele de fato não tem porque os pais se omitem.

Depois desse episódio finalmente caiu a ficha para mim, sempre me diziam que este país tinha a cultura oriental. Na verdade, esse é um país árabe dos judeus.

Ben Gurion havia sido criticado por ter dito que não queria que Israel se tornasse um país árabe. Eu apóio Ben Gurion.

Obviamente estou falando da cultura coletiva em determinadas situações. Os países árabes não tem uma liberdade de expressão tão forte como aqui. Onde deputados criticam a existência do país, ou onde os homossexuais podem livremente manifestar sua condição, ou onde passeatas ocorrem como rotina do país.

Dois ou três dias depois outro episódio demonstrou novamente esse ponto. Fomos ao festival de Luz em Jerusalém. A idéia do festival era que vários artistas expusessem suas obras por toda a cidade velha de Jerusalém.

Réplica da Menorá (candelabro), que os romanos levaram depois de destruírem o Templo Sagrado. Dizem que a original se encontra no vaticano.

Pegamos uma van na estação central de ônibus de Tel Aviv, que segundo a Wikipedia é a segunda maior do mundo. A região do entorno não é tão feia, mas lembra qualquer região de rodoviária no mundo.

Ao invés de um ônibus, fomos a Jerusalém de van. A viagem custou por volta de doze reais (70 Km) e durou por volta de 1 hora. Quase chegando em Jerusalém, dois camaradas que estavam na van, tentaram convencer ao motorista a fazer o caminho que eles queriam, dizendo ser melhor, mais perto da cidade velha. Ficaram discutindo e não conseguiram mudar o caminho.

O festival tinha diversas atrações. As que mais gostei foram uma projeção em umas casas, onde uma pessoa caminhava por sobre os arcos, depois passavam por uma parede e ficava enorme, e voltava. Foi bem interessante.

Arcos onde foi projetada uma das obras.
A outra bem legal foram umas pessoas dançando com roupas de plástico que tinham belos efeitos visuais. Era uma espécie de teatro a céu aberto, caminhando de um lado para outro. Bem diferente.

As meninas que foram conosco nos fizeram perder por volta de 1 hora na tentativa de comprar bugingangas. Depois de rodar bastante pela cidade, fomos pegar a van. Esperamos cerca de 20 minutos para que a van estivesse cheia e seguimos para casa.

Igreja iluminada para o fstival.

Na volta, um grupo de mulheres de aproximadamente 45 anos, começaram a borrifar spray de banheiro (isso mesmo, aquele usado para disfarçar o cheiro, na verdade disfarçar não, desviar a atenção, porque o cheiro é terrível) na van.

Uma das meninas, francesa, toda educada pediu licença e perguntou se alguma delas falava inglês. Ela foi completamente ignorada e fomos sentindo aquela maravilhosa fragrância até Tel Aviv.

Tem mais coisas da cultura daqui que eu não gosto. Tel Aviv é uma cidade em que não há grande oferta de vagas, então, não é incomum que quando alguém ache uma vaga, uma pessoa fique de plantão guardando a vaga para outra que está por vir com o carro.

Na quarta estávamos procurando vaga há muito tempo, fomos dar a volta com o carro e no exato instante chegou um camarada para guardar a vaga. Bom, estacionamos por cima dele. E quando o cara veio argumentar comigo que aquela não era uma atitude bonita, que éramos turistas, eu falei pra ele. Lindo é esse hábito tosco de guardar a vaga sem o carro né. Viaje e veja o mundo.

Logo em seguida, duas motos passaram em alta velocidade na calçada. Na hora me toquei que não há como brigar contra a cultura. No aspecto coletivo, essa cultura é lamentável.


Uma outra coisa que me deixou triste aqui é a maneira como o israelense preserva as coisas aqui. Era de se esperar que todos amassem a terra e a deixassem completamente limpa. Trilhas são sujas e a praia também. Acho isso uma falta de cuidado incrível que não esperava encontrar aqui.

Já aquela velha preocupação com a demografia parece não fazer sentido em Tel Aviv. a comunidade religiosa a média de filhos é de fato alta, mas olhando nas ruas aqui, se nota que há muitas crianças nascendo.

Outro dia a professora confirmou que leu uma estatística que a população de Israel vem crescendo. Parece, portanto, que a preocupação com o crescimento da população árabe interna não faz tanto sentido.

Nessa semana teve treinamento para proteção em caso de guerra. No início do dia, um camarada passou na turma e nos instrui a seguir procedimentos. Quando ele entrou na sala, eu automaticamente parei de prestar atenção e fiquei fazendo alguns exercícios. Na hora que rolou o treinamento e tocou a sirene eu estava desavisado, e fiquei uns 2 segundos pensando o que era aquilo. Até que eu me liguei que todos caminhavam para perto da parede que o senhor havia mostrado e me toquei que aquilo era uma situação prevista. 

Fomos todos pra perto da parede. Achei a situação estranha, achei que o treinamento fosse mais sério, com as pessoas se deslocando para os bunkers e fingindo realmente ser uma emergência. Se houver algo sério, não é possível que o meu papel seja corre para uma parede e ficar colado a ela.

Cada dia me deparo com algo da cultura aqui que é muito forte e bem oposto da cultura que carrego comigo. Morar em outro lugar sempre acarreta mudança de cultura. Mesmo no Brasil, quando vou pra outra cidade vejo isso. Porém, andar meio mundo e parar por aqui traz mudanças muito mais drásticas. Cada dia é uma batalha e é difícil juntar tudo que há de bom e de ruim, jogar numa balança e comparar com outros lugares.

Hoje li no jornal sobre a promiscuidade do relacionamento do governador do Rio com empresários. É outra coisa que também me deixa enfurecido. Como podemos ainda aceitar esse tipo de comportamento. Cada lugar tem algo tenebroso. É difícil, pelo menos pra mim, viver em algum lugar onde coisas bizarras como essa acontece. Não consigo não me sentir afrontado, como se alguém estivesse apontando para mim e dizendo, é errado, mas vou fazer porque sou mais forte.

Tanto lá quanto cá há algo desse tipo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Jerusalém de dia, Yad VaShem, mais coincidências e uma noite num festival gastronômico

Na semana passada fomos com a turma do Ulpan para um passeio em Jerusalém. Outras turmas foram conosco, e às três turmas têm em comum o fato de que quase todo mundo é Olê Chadash (novo imigrante). 

Jerusalém é uma cidade incrível. Eu conheço pouquíssimo da cidade, basicamente a parte judaica da  cidade antiga e alguns bairros bem próximos à parte judaica da cidade. Mas essa pequena parte que eu conheço me intriga e me surpreende.

Am Israel Chai, ou Que o povo de Israel viva ! 
Ver as cores da cidade num dia ensolarado como foi sempre é uma experiência diferente. Mas este dia não começou com sensações tão positivas. Nos encontramos bem cedo próximo ao Ulpan, de onde partiria nosso ônibus. Conosco foi uma guia israelense e pela primeira vez fui capaz de entender todas as explicações em hebraico.

O primeiro ponto de parada foi o Har Hertzl, ou Monte Hertzl. Trata-se de um jardim-cemitério importantíssimo em Israel. Nele está enterrado Herzl, o maior propulsor, e para muitos o inventor, do conceito de Sionismo. 

Túmulo de Theodor Herzl.

Nesse cemitério estão enterrados ex-primeiros-ministros, ex-presidentes e algumas outras figuras importantes da história do país. Pude ver, por exemplo, que Golda Meir estava lá.

Foi fácil achar o escritório do Mossad. Disseram que estes caras se escondiam.

Depois de uma volta pelo local, fomos ao Museu do Holocausto, Yad VaShem. O museu que visitei em 1998 não é o mesmo que agora. O museu foi reconstruído. O museu é todo na horizontal e possui muito material interessante. O que mais me impressionou nesse museu foi a quantidade de material audio-visual com entrevistas de sobreviventes. 

O museu de Whasington me pareceu mais didático, digamos. Os vídeos explicavam todas as fases do que aconteceu na guerra, tinha muito material. Mas o Yad VaShem marca pela maneira como expõe histórias individuais, tirando o aspecto estatístico da guerra e te levando para a vida de pessoas em particular.

É de fato uma abordagem menos histórica e mais familiar. No sentido de que mostra que aquela tragédia enorme não foi um evento para ser estudado em livros ou em faculdades, foi um evento real, íntimo, que poderia ter passado com qualquer um. 

Os depoimentos marcam muito porque as pessoas que contam as história relembram no momento de contar e com isso o fazem com emoção, é algo que perturba a serenidade de qualquer um.

Depois de visitar toda a parte do desenvolvimento da guerra, fomos a um quarto escuro, onde é difícil andar sem se guiar no corrimão. Nesse quarto vão sendo lidos os nomes de pessoas que tombaram na guerra. É uma sensação muito estranha. Eles dizem nome, de onde era, idade da morte. É perturbador. 

Outro aspecto importante deste museu é o reconhecimento dos heróis que salvaram judeus durante a guerra, arriscando sua própria vida. Não importa se salvaram milhares ou apenas uma vida. Eles se arriscaram, e sempre que histórias aparecem como essa, estas pessoas ganham o título de Justos do Mundo. Normalmente há uma cerimônia de entrega do diploma para a pessoa ou familiares. 

Em minha turma já soube de dois em que suas famílias foram salvas por pessoas como essas, e que receberam a condecoração. Achei muito legal isso.

Fé.
Depois do museu, fomos para um parque fazer um almoço. Pensei que não haveria comida suficiente, mas me enganei. Havia muita comida e fizemos um farto almoço. Como era véspera de Shavuot, muita coisa era baseada em leite, como é costume da festa.

Almoço no parque.
Depois do almoço, fomos caminhar na cidade velha e aí sim as cores das pedras de Jerusalém se misturando à luz do dia, o reflexo das mesquitas, trazem um ar místico à cidade. A cidade velha é incrível e não há como descrever o que ela tem de especial. Há de se sentir.

Kotel HaMaaravi ou Muro Ocidental, também chamado de Muro das Lamentações em primeiro plano. Mesquita de Omar à esquerda e Mesquita de Al Aksa à direita.

O dia terminou com uma visita ao Muro das Lamentações e depois uma viagem de volta. Com o calor que fazia, a viagem foi cansativa, mas foi bem legal.

Detalhe da passagem que parte desde o Muro das Lamentações até a esplanada das mesquitas.
O final de semana foi movimentado, em Tel Aviv rolou a Parada do Orgulho, ou orgulho gay. Por todos os lados já se viam bandeiras arco-íris. A cidade é bem liberal em todos os sentidos, inclusive do ponto de vista da escolha da sexualidade. 

A cidade estava cheia inclusive de turistas e muitas pessoas foram desfilar. Eu não desfilei, mas tive a boa idéia de ir a praia depois da confusão. Deu pra ver que a cidade ainda estava movimentada, mas o acontecimento principal já tinha terminado.

A semana mostrou que o verão chegou, e com ele, as águas-vivas. De alguns anos para cá, no verão, as praias de Tel Aviv ficam abarrotadas de águas-vivas (aqui chamadas de Meduza). Nesse fim de semana eu fui a praia e saí com algumas pequenas queimaduras. Espero que o pessoal resolva ir para praias mais tranquilas, porque se for para me queimar na água, vai ser difícil.

Uma curiosidade aqui em Israel é que as pessoas não se xingam em hebraico. Como diz-se que o hebraico é uma língua sagrada, os palavrões surgem em outros idiomas, especialmente o árabe. 

Na sexta o vizinho fez uma festa e nos convidou. O vizinho, por coincidência, estuda no Ulpan. A festa foi bem legal, mas achei que acabou cedo para os padrões latinos. O ponto foi que muita gente passou a vir à nossa casa para usar o banheiro e tivemos de fazer uma limpeza forte depois da festa. A festa passou por lá, mas parece que a sujeira passeou por aqui.

E hoje, uma surpresa, na academia estava malhando a Top Model Bar Rafaeli. Uma daquelas belas coincidências que acontecem na vida.

Nessa semana começa um festival gastronômico aqui em Tel Aviv, esse mês está cheio de atividades, o que o torna bem legal. O nome do festival é Taam HaIr, ou Gosto da Cidade.

Ontem foi a primeira noite do festival. Fomos Maurício, Leo e eu ao festival. A chegada foi relativamente tranquila, até a entrada no estacionamento. O estacionamento ficou pior do que o Rio Sul em dia de chuva. Incrível como não se respeita sequer a mão das vias. Não preciso dizer que inúmeros carros paravam ocupando duas vagas ou até mesmo quatro. Isso mesmo, alguns dos expositores pararam o carro atravessado. 

E o pior é que a polícia de trânsito estava dentro e não auxiliava em nada no controle do fluxo. Eu fiquei me perguntando qual era o motivo de estarem ali, minha única conclusão era de que estavam ali para provas os quitutes.

Depois de 40 minutos (ou mais), tentando nos mover para achar uma vaga finalmente conseguimos parar o carro. E lhes conto antes de falar o que comi, valeu a pena. 

O festival é enorme, uma área incrível de exposição e uma variedade igualmente grande. Começamos comendo um sanduíche de carne defumada. O sanduíche devia ter o dobro da altura de um Big Mac, o pão era muito fino e o recheio devia medir 3 ou 4 dedos de altura. Mas cada fatia de carne era muito fina.

Um molho de mostarda foi adicionado a cada sanduíche, assim como outros temperos. Para completar o prato, um pepino em conserva de alta qualidade.

Fomos andando por diversos restaurantes buscando alguma com comidas diferentes do que comemos na rotina. O outro restaurante que paramos foi um especializado em comida Marroquina. Comemos dois pratos. Uma espécie de almôndega bem consistente com um tempero forte, feito com algumas verduras. Acompanhava um caldinho muito gostoso. 

O outro foi um que me intrigou. Era uma espécie de massa recheada com carne desfiada, a massa era consistente, não tanto como um salgadinho requentado no micro, mais macia, e aí que vem o mais surpeendente. Em cima da massa ia açúcar de confeiteiro com canela. A mistura é incrível. Em termos de combinação doce-salgado foi a que mais gostei até hoje. E em termos genéricos, foi uma das combinações que mais me surpreenderam em termos de experiência gastronômica. O nome do prato é Pastilla, mas é lido bastiyya. 

Iguaria marroquina: Pastilla.

Depois disso fomos obrigados a passar num stand de cervejas. Tomei uma Tripel chamada Masroud e o Maurício pediu uma cerveja com mel. Essa era uma pilsen com mel, não era doce, mas dava para notar o aroma de mel e o gosto no final, surpreendentemente sem ser doce.

Na barra de cerveja. Surpresa ! Sem barba.

Com o copo na mão seguimos nossa volta. Passamos por uma casa onde eram projetadas imagens, simulando neve, cores das portas e assim por diante. Achei interessante. Chegamos depois a um lugar que estava preparando uma Falafel tuna (falafel de tuna), mas que eu achei parecido com bolinho de bacalhau. 

Somente a casca lembrava a consistência, porque o recheio era de consistência e sabor diferentes. Mas mesmo assim combinou muito bem com a cerveja.

Antes de achar a cerveja ainda tivemos tempo de comprar um kibe druso, que é bem diferente do kibe que temos no Brasil, que é o kibe libenês. O kibe druso (Kuba), parece mais com um salgadinho nosso, com aquela massa por fora e recheio de carne por dentro. Vale a pedida.

Sanduíche de Lábane sendo preparada por uma senhora Drusa, à direita os Kibes Drusos (Kuba). 
No fim da noite decidimos que hoje precisamos voltar lá para provar outros pratos que deixamos passar, como uma bela seleção de queijos, doces árabes e massa.

domingo, 5 de junho de 2011

Comida persa e um bom papo

Se você está em outro país e tem vontade de mergulhar na cultura local, há muito o que aprender. E não somente temas profundos como política e religião. Há temas mais amenos e não menos interessantes. Estes temas vão desde a escolha de nomes das pessoas no local a como traduzem os nomes de filmes. Passa inevitavelmente por cultura e religião e as diferentes maneiras de enxergar o mundo através dela.

No final de semana retrasado fui almoçar na parte sul de Tel Aviv, bem perto de um mercado de temperos na Rua Levinsky. Essa rua é tomada por lojas que vendem temperos, frutas secas e artigos mais exóticos, no estilo Casa Pedro. A extensão não é quilométrica, porém há grande variedade de artigos e de lojas. 

Por acaso não estava com minha câmera neste dia, mas gostei tanto que pretendo voltar para repetir a refeição que tive na semana em questão. Fui com a Keren comer em um restaurante presa. 

Pra quem não sabe, conheci a Keren por intermédio da Gabi, mulher do Flávio. A Keren participava de uma organização chamada Israel at Heart. A idéia da organização era enviar ex-soldados israelenses pelo mundo, para os mais diversos países, dando predileção à conversas em universidades para abrir diálogo e quebrar preconceitos pelo mundo. 

Depois deste trabalho a Keren ainda morou dois anos no Rio, tendo trabalhado numa outra organização judaica, o Hillel, da qual eu também participei.

Bom, voltando ao restaurante persa, um amigo dela nos havia indicado não somente o restaurante como também os pratos que deveríamos pedir. O camarada que nos atendeu tinha sotaque forte, indicando que não era de Israel (suponho eu que do Irã, dado o tipo de restaurante), e era bem simpático.

Pedimos dois pratos, um era um ensopado de carne de carneiro no molho de limão. Não era exatamente molho, mas sim um caldo que vinha num prato fundo, com limões que haviam sido utilizados no preparo 
junto. 

O outro prato era um também de carne com base de tomate, novamente o molho era no mesmo esquema. Para acompanhar o camarada nos recomendou arroz. Ficamos na dúvida e pedimos arroz branco, como ele 
percebeu que não conhecíamos nada, nos trouxe outros dois tipos de arroz.

Um preparado com cenoura, nozes diversas dentre outros ingredientes e tinha a cor tendendo para o bege e um outro de cor verde, com diversas ervas. Ambos saborosíssimos. 

A comida era tanta que tive de fazer força para conseguir comer tudo. O tempero era bem marcado, mas 
não forte. E as diversas combinações de arroz deixavam os pratos ainda mais gostosos.

Durante nosso almoço surgiu um assunto interessantíssimo: nomes. Eu perguntei à Keren como as pessoas conseguiam utilizar tantos nomes para meninos e meninas. E ela me explicou a origem de muitos nomes 
israelenses atuais. 

Muitos deles são ligados à temas da natureza como pássaros, árvores e outros assuntos variantes. Essa cultura começou com os novos imigrantes que queriam exprimir seu amor à terra prometida e a tudo que nela havia. Achei interessante e fiz uma comparação com os cristãos novos que em geral recebiam nomes de árvores quando de sua conversão. 

Outro assunto que não podia faltar foi sobre como as pessoas em Israel agem. A Keren havia conversado com amigos delas, e que quando indagados sobre andar de moto nas calçadas concordaram que de fato aquela atitude era absurda. Espero que pelo menos estes parem de fazer isso. 

Apesar de uma afinidade religiosa incrível, a cultura ainda é uma incógnita na minha cabeça. Fico tentando entender o que pode levar um país a não respeitar algumas regras básica e respeitar outras não tão simples. Ao mesmo tempo em que são capazes de andar com motos nas calçadas, raramente vejo alguém avançando sinal. Mas muito de vez em quando uma moto faz isso. Carro nunca vi, nem mesmo de madrugada. Eu atravesso na faixa sem olhar para os lados.

A Keren comentou que quando o país foi formado vieram muitos judeus da europa, muitos vieram de vilas pobres da europa oriental e além disso houve um afluxo grande de judeus oriundos de países árabes. 

Estes são conhecidos aqui como mizrahis (orientais) e há claramente uma cultura própria que atualmente é atribuída a esse grupo, apesar de eu achar que vai mais do comportamento atual do que de fato as origens das pessoas.

Ben Gurion inclusive foi fortemente criticado quando resolveu intrometer-se neste assunto tendo feito algumas declarações que foram consideradas ofensivas. Obviamente não me sinto confortável das pessoas não fazerem fila, berrarem umas com as outras por qualquer motivo banal e pelo fato de não respeitarem leis básicas, como não fumar em locais fechados. 

Outro ponto que para mim é dificílimo de entender dentro da cultura israelense é como um povo pode ser tão solidário em situações de desgraça, como por exemplo, se voluntariando para prestar socorro em eventos de catástrofe como no Tsunami na Tailândia, o Terremoto no Haiti e o Vazamento nuclear no Japão, mas serem egoístas ao ponto de furarem e não respeitarem fila, de estacionar em mais de uma vaga ou não dar passagem no trânsito. São dois valores tão próximos que eu não consigo entender como não são feitos simultaneamente.

Mas se ao mesmo tempo eu me espanto com isso, a Keren me contou uma situação que de fato temos como 
normal e é de fato um absurdo. Ela conta que quando foi ao Brasil pelo programa que eu já comentei, ela ficou hospedada na casa de uma pessoa na Zona Sul. Era um prédio novo, mas que mesmo tendo sido construído recentemente tinha dependência para empregadas, com um quarto minúsculo. Isso de fato é um completo absurdo. Parem pra pensar como é um resquício dos tempos coloniais que perdura até hoje.

A submissão aí é marcada por um quarto que é destinado aos serviçais, de tamanho minúsculo onde muitas vezes os empregados dormem e passam a semana. É um ranço absurdo que perdura até hoje e consideramos este um fato normal. 

Comentei com ela o livro que li sobre o Brasil: Deu no NY Times. Ela concordou muito com o início do livro onde o autor fala que a primeira impressão que se tem do Brasil é de se estar chegando ao paraíso, mas uma vez que o turista passa a ser morador, vê que na verdade ele está preso numa armadilha clientelista onde em todos os lugares há uma relação de favores permeando o trato social.

Voltando ao dia-a-dia, tenho feito Yoga há 4 ou 5 semanas. Eu pensava que o exercício era apenas ficar sentado esperando o tempo passar tentando não pensar em nada (IMPOSSÍVEL), porém, o que encontrei foi uma série de exercícios que exigem ao mesmo tempo flexibilidade e força. 

Imaginem vocês que flexibilidade está longe de ser alguma habilidade minha, de fato, acho que eu nem devo falar que sou flexível, eu posso falar que consigo dobrar pernas e braços. As primeiras aulas foram ridículas, eu não conseguia fazer decentemente nenhuma posição e, por incrível que pareça, não conseguia me sustentar com força por períodos relativamente curtos. Mas após cinco aulas me sinto bem melhor fazendo estes exercícios e gostaria bastante de continuar com a prática.

Neste final de semana fui assistir a uma sessão de cinema do projeto 48 horas na cinemateca de Tel Aviv. Eram todos curtas feitos da seguinte maneira. Todos os participantes recebiam um objeto, um nome e uma fala para realizar um curta. Eles tinham 48 horas para realizar todo o trabalho, desde o roteiro até a edição final. O resultado nem sempre é legal, mas o esforço é incrível.

Vimos 12 filmes, completamente devo ter entendido uns 3, e mesmo assim os que tinham menos fala. Mas foi uma experiência bem interessante. Os atores estavam na platéia, alguns dos responsáveis subiram para explicar a experiência que tiveram e por fim vi como mesmo os que não conseguiram terminar a tempo ou não tiveram idéias legais gostaram de ter participado.

No dia seguinte comemoramos o aniversário do Rafinha. O dia começou cedo com o Flávio me buscando em Tel Aviv, depois fomos ao cinema. Dessa vez entendi por volta de 80% dos diálogo de Hop, o Coelho. Fiquei muito feliz de ter entendido tanto. Após ao cinema fomos a pizzaria Volcano, que fica no mesmo estabelecimento da sorveteria Iceberg. 

Comemos uma pizza de alta qualidade e tomamos um sorvete de igualmente alta qualidade. Ótima combinação para o dia que fazia. Na noite o Rafinha foi para o batizado de capoeira (esporte que pratica há 4 anos). Incrível como samba, capoeira e futebol está espalhado pelo mundo. 

Fora o último ponto, não me identifico nem um pouco com os outros dois. Curioso como tendo nascido lá não me ligo nisso e um monte de gente tendo nascido tão distate gosta tanto disso. Talvez os ingleses pensem o mesmo pelo meu gosto pelo rock, vá saber.

Amanhã vou a uma viagem para Jerusalém com o pessoal do Ulpan. No dia seguinte é Shavuot, uma outra festividade judaica. Shavuot ocorre 50 dias após a saída do Egito, ou seja, 50 dias após Pessach. 

Neste dia o povo judeu recebeu a Torah no deserto. Há uma conexão entre as duas festas, portanto. Outro ponto da festa é que ela marca o início de um período de colheitas e nessa época, quando ainda havia o Templo Sagrado, eram oferecidas frutas (as primeiras da colheita) e alguns animais para os sacerdotes e levitas (sim, se fosse hoje eu receberia presentes). 

É costume nessa festa fazer uma refeição festiva à base de leite. Dizem que escolheram por fazer com derivados de leite por desconhecerem as regras da Cashrut (a dieta judaica), recém conhecida com o recebimento da Torah.

O clima já está esquentou, apesar de ainda não ter começado o verão, a temperatura já é alta, as praias estão lotadas e o ar-condicionado é ítem obrigatório em tudo. 

Abaixo algumas curiosidades, só pra não falar que não tem fotos !