Estive na praia nesse final de semana. A praia é um ótimo lugar para observar os costumes individuais e coletivos.
Alguns conceitos não existem em Israel. Dois deles podem ser vistos na praia, o primeiro não é exclusivo da praia, e se estende por toda a maneira de viver do israelense. O israelense não tem vergonha de praticamente nada. Eles se vestem como querem, eles se comportam como querem, eles usam o cabelo como querem.
Não é incomum, portanto, você ver na praia as pessoas usando os mais diferentes trajes de banho. Passando de cuecas e maiôs, até rapazes de fio dental. Os cabelos então, há de tudo. Podem imaginar que o que vocês pensarem tem. E por aí vai.
| Vovô vestindo cuecão. |
Outro conceito que não existe é o de farofa. O israelense vai pra praia com café, almoço e janta. Leva o violão, narguila, cadeiras, barraca, cangas e similares e o que mais couber no carro. Ou no ônibus, em muitos casos.
Chegamos na praia e tratamos de achar um lugar espaçoso. Levamos também nossa barraca, cadeiras, uma espécie de tapete de palha e alguns salgadinhos. O lugar era confortável. A nossa frente estava uma família bem grande. Segundo o Maurício eles sempre estão por ali.
Atrás de nós havia um grupo cuja média de idade das pessoas devia ser 35 anos. O grupo era grande... e barulhento. Havia particularmente um personagem que é típico por aqui. O cara é o esteriótipo do fanfarrão israelense, também chamado de arsi, uma importação do árabe cuja tradução não sei precisar.
Apesar de não saber a tradução, descrevê-lo é bem simples. Falam alto, mexem com todos que passam perto deles, estejam as meninas acompanhadas ou não, normalmente usam o cabelo bem baixo, escutam músicas de gosto duvidoso e sempre com o som alto, normalmente os carros são "tunados", ou pelo menos eles acham que é.
No grupo atrás da gente tinha um camarada como esse. Ele iniciou todo tipo de incômodo possível. Todos que passavam na praia e ele conhecia, ele fazia questão de cumprimentar, aos berros. Toda hora pegava o violão e entoava as músicas (de gosto duvidoso) também aos berros. Quando não tocava, acompanhava as pessoas, obviamente aos berros.
A música típica que se escuta é a mizrahi (oriental), que tem forte influência dos países vizinhos. Eu fico me imaginando se isso veio com as imigrações, ou se ainda hoje a influência chega de alguma maneira. Eu achando que aquilo era um incômodo enorme, não imaginava o que estava por vir.
A família que estava na nossa frente, de vez em quando, discutia por alguma coisa. Tinha uma mulher invocada que dava ordens e distribuía broncas para todos. Enquanto eu olhava estarrecido para essa cena, cinco crianças começaram a jogar bola. No meio de todo mundo. Não demorou tanto para elas começarem a incomodar a todos em volta.
Num pique que eles deram, uma criança sujou todo o cabelo de uma menina de areia. A única reação da mulher foi levantar rapidamente e dar um sorriso de canto de boca. Sinceramente, eu não entendi isso.
Não demorou muito para a bola começar a bater em todo mundo, inclusive em mim. Quando a bola veio em nossa direção, eu travei e não devolvi. Quando uma criança veio perto, avisei pra jogar longe, não deu em nada.
Logo depois, um dos garotos se preparou para cobrar uma falta, fez o montinho, posicionou a bola, e quando estava prestes a chutar, um outro veio de carrinho e tirou a bola do lugar. O menino que ia bater a bola era maior, e quando viu que o outro garoto tinha feito, não pensou duas vezes e deu um chutecom gosto na costela do menor, que havia dado o carrinho.
Obviamente o garoto menor não gostou, levantou e foi tirar satisfação. A situação ficou naquela iminência de briga, o pai do menor levantou e foi intervir. Chamou o responsável pelo outro garoto, que não sei se era pai ou tio (tinha cara de tio).
O tio do garoto que chutou o outro teve a cara de pau de dizer que os garotos brincavam de boxe tailandês. Ele parecia estimular o sobrinho e ainda levantou e foi demonstrar alguns golpes. Eu achei aquela desculpa completamente surreal.
E não parou por aí. A história teve um desfecho de ouro. O tio, demonstrando as habilidades, colocou uma cadeira na frente, posicionou o sobrinho depois da cadeira, e por cima da cadeira desferiu um chute no sobrinho. O idiota errou a quantidade de força e bateu muito forte. Dali em diante seu protegido andou mancando com a mão na coxa.
Falam que o israelense tem chutzpá (rutz-pá), que pode ser traduzido como insolência ou audácia, dependendo do ponto de vista, mas na minha opinião, o israelense não tem educação. E não é que tem má educação, ele de fato não tem porque os pais se omitem.
Depois desse episódio finalmente caiu a ficha para mim, sempre me diziam que este país tinha a cultura oriental. Na verdade, esse é um país árabe dos judeus.
Ben Gurion havia sido criticado por ter dito que não queria que Israel se tornasse um país árabe. Eu apóio Ben Gurion.
Obviamente estou falando da cultura coletiva em determinadas situações. Os países árabes não tem uma liberdade de expressão tão forte como aqui. Onde deputados criticam a existência do país, ou onde os homossexuais podem livremente manifestar sua condição, ou onde passeatas ocorrem como rotina do país.
Dois ou três dias depois outro episódio demonstrou novamente esse ponto. Fomos ao festival de Luz em Jerusalém. A idéia do festival era que vários artistas expusessem suas obras por toda a cidade velha de Jerusalém.
| Réplica da Menorá (candelabro), que os romanos levaram depois de destruírem o Templo Sagrado. Dizem que a original se encontra no vaticano. |
Pegamos uma van na estação central de ônibus de Tel Aviv, que segundo a Wikipedia é a segunda maior do mundo. A região do entorno não é tão feia, mas lembra qualquer região de rodoviária no mundo.
Ao invés de um ônibus, fomos a Jerusalém de van. A viagem custou por volta de doze reais (70 Km) e durou por volta de 1 hora. Quase chegando em Jerusalém, dois camaradas que estavam na van, tentaram convencer ao motorista a fazer o caminho que eles queriam, dizendo ser melhor, mais perto da cidade velha. Ficaram discutindo e não conseguiram mudar o caminho.
O festival tinha diversas atrações. As que mais gostei foram uma projeção em umas casas, onde uma pessoa caminhava por sobre os arcos, depois passavam por uma parede e ficava enorme, e voltava. Foi bem interessante.
| Arcos onde foi projetada uma das obras. |
As meninas que foram conosco nos fizeram perder por volta de 1 hora na tentativa de comprar bugingangas. Depois de rodar bastante pela cidade, fomos pegar a van. Esperamos cerca de 20 minutos para que a van estivesse cheia e seguimos para casa.
| Igreja iluminada para o fstival. |
Na volta, um grupo de mulheres de aproximadamente 45 anos, começaram a borrifar spray de banheiro (isso mesmo, aquele usado para disfarçar o cheiro, na verdade disfarçar não, desviar a atenção, porque o cheiro é terrível) na van.
Uma das meninas, francesa, toda educada pediu licença e perguntou se alguma delas falava inglês. Ela foi completamente ignorada e fomos sentindo aquela maravilhosa fragrância até Tel Aviv.
Tem mais coisas da cultura daqui que eu não gosto. Tel Aviv é uma cidade em que não há grande oferta de vagas, então, não é incomum que quando alguém ache uma vaga, uma pessoa fique de plantão guardando a vaga para outra que está por vir com o carro.
Na quarta estávamos procurando vaga há muito tempo, fomos dar a volta com o carro e no exato instante chegou um camarada para guardar a vaga. Bom, estacionamos por cima dele. E quando o cara veio argumentar comigo que aquela não era uma atitude bonita, que éramos turistas, eu falei pra ele. Lindo é esse hábito tosco de guardar a vaga sem o carro né. Viaje e veja o mundo.
Logo em seguida, duas motos passaram em alta velocidade na calçada. Na hora me toquei que não há como brigar contra a cultura. No aspecto coletivo, essa cultura é lamentável.
Uma outra coisa que me deixou triste aqui é a maneira como o israelense preserva as coisas aqui. Era de se esperar que todos amassem a terra e a deixassem completamente limpa. Trilhas são sujas e a praia também. Acho isso uma falta de cuidado incrível que não esperava encontrar aqui.
Já aquela velha preocupação com a demografia parece não fazer sentido em Tel Aviv. a comunidade religiosa a média de filhos é de fato alta, mas olhando nas ruas aqui, se nota que há muitas crianças nascendo.
Outro dia a professora confirmou que leu uma estatística que a população de Israel vem crescendo. Parece, portanto, que a preocupação com o crescimento da população árabe interna não faz tanto sentido.
Nessa semana teve treinamento para proteção em caso de guerra. No início do dia, um camarada passou na turma e nos instrui a seguir procedimentos. Quando ele entrou na sala, eu automaticamente parei de prestar atenção e fiquei fazendo alguns exercícios. Na hora que rolou o treinamento e tocou a sirene eu estava desavisado, e fiquei uns 2 segundos pensando o que era aquilo. Até que eu me liguei que todos caminhavam para perto da parede que o senhor havia mostrado e me toquei que aquilo era uma situação prevista.
Fomos todos pra perto da parede. Achei a situação estranha, achei que o treinamento fosse mais sério, com as pessoas se deslocando para os bunkers e fingindo realmente ser uma emergência. Se houver algo sério, não é possível que o meu papel seja corre para uma parede e ficar colado a ela.
Cada dia me deparo com algo da cultura aqui que é muito forte e bem oposto da cultura que carrego comigo. Morar em outro lugar sempre acarreta mudança de cultura. Mesmo no Brasil, quando vou pra outra cidade vejo isso. Porém, andar meio mundo e parar por aqui traz mudanças muito mais drásticas. Cada dia é uma batalha e é difícil juntar tudo que há de bom e de ruim, jogar numa balança e comparar com outros lugares.
Hoje li no jornal sobre a promiscuidade do relacionamento do governador do Rio com empresários. É outra coisa que também me deixa enfurecido. Como podemos ainda aceitar esse tipo de comportamento. Cada lugar tem algo tenebroso. É difícil, pelo menos pra mim, viver em algum lugar onde coisas bizarras como essa acontece. Não consigo não me sentir afrontado, como se alguém estivesse apontando para mim e dizendo, é errado, mas vou fazer porque sou mais forte.
Tanto lá quanto cá há algo desse tipo.
