Esse livro que estou lendo, Rebelião na Terra Santa (eu não achei o livro em nenhuma loja no Brasil, mas no Google Books tem) tem várias reflexões bem interessantes. Uma questão que ele levanta é a briga que parece que vem de longa data entre árabes e judeus.
No livro, Begin fala sobre como os ingleses se tornaram especialistas em gerenciar um império enorme, tanto em tamanho geográfico quanto em população, sem ter um exército igualmente enorme. Aqui em Israel o que eles fizeram foi gerar pânico, primeiramente, nos judeus, falando que ali estavam para protegê-los dos árabes. Obviamente, por trás, eles instigavam os árabes a atacarem os judeus.
E quando isso parou de funcionar, quando os judeus começaram a explodir diversas instalações inglesas, os ingleses tentaram fazer o contrário, dizendo que estavam ali para proteger os árabes dos judeus. Parece simplista, mas há outros fatores envolvidos. Mas me pareceu bastante razoável o início de um conflito que parece tão forte agora. Ainda mais depois de eu ter estudado que em grande parte de sua história os povos mantiveram relações muito mais do que cordiais, tendo vivido um século chamado de Época de Ouro, ainda na Espanha.
Toda essa introdução, e a leitura do livro, tornam-se bem interessantes tendo em vista o que aconteceu nessa semana em Jerusalém e o que vem acontecendo na faixa de Gaza. Em Jerusalém uma bomba foi detonada ferindo dezenas de pessoas, deixando algumas em estado grave e matando até o momento uma senhora. Matar alvos civis é uma covardia. Não há razão alguma que faça sentido a morte de alvos civis por escolha.
O outro fato que vem acontecendo é que Israel pode vir a lançar uma operação na faixa de Gaza maior do que a que aconteceu no final de 2008 e início de 2009. Israel vem sendo alvos de mísseis há um bom tempo e os ataques se intensificaram nesta semana. Alguns mísseis atingiram Ashdod, que fica a 37 Km de Tel Aviv, e outros Beer Sheva, mais ao sul.
O Pessach vem se aproximando e o Ulpan vai parar por duas semanas (e eu estou pagando por isso...). Pessach é a festa na qual comemoramos a saída do Egito. É nessa festa que ocorreu a passagem bíblica das 10 pragas.
Durante Pessach não se come nada que seja fermentado. O Flávio já me adiantou que os mercados tem seções que ficam fechadas e não se vende pão em nenhum lado. Pelo menos acredito que aqui será bem mais fácil cumprir todas as determinações do que no Brasil, onde nada muda, apenas os nossos hábitos, o que exigia uma adaptação incrível.
Eu lembro que a vovó Fina adorava Pessach, sempre me falava. Ela adorava a comida. E eu sempre me perguntava como podia ! Você deixa de comer arroz e outros cereais (se você for Ashkenazi - judeus oriundos da europa), a farinha que utilizamos é muito mais pesada do que a que se usa normalmente, quase tudo tem ovo e muita coisa é frita. O resultado é pesado para o estômago, e para os que te circundam.
Vai ser interessante que no Ulpan vai ter uma comemoração. Isso é bem legal, já que grande parte da turma, e talvez do Ulpan, não seja de judeus. Para já preparar o pessoal, nessa semana fomos para o salão e as músicas foram apresentadas. Não só as de Pessach mas músicas tradicionais judaicas. Incrível começar a entender as letras e ver que nem sempre são poemas incríveis.
Vão alguns exemplos:
עבדים היינו
Havadim Haínu
Escravos, nós fomos
עֲבָדִים הָיִינוּ, הָיִינוּ
Havadim Hainú, Haínú
Escravos, nós fomos
עַתָּה בְּנֵי חוֹרִין, בְּנֵי חוֹרִין
Atá bnei rorin, bnei rorin
Agora, um povo livre, um povo livre
עֲבָדִים הָיִינוּ
Havadim Hainú
עַתָּה, עַתָּה בְּנֵי חוֹרִין, בְּנֵי חוֹרִין
Atá, atá bnei rorin, bnei rorin
O curioso aqui é que na segunda frase, a última palavra (que também aparece antes) termina com a letra equivalente a n (ן נ - aqui mostrei as formas da letra de meio de palavra e fim de palavra nessa ordem) no alfabeto hebraico, apesar de pela gramática o plural masculino terminar em m (ם מ - aqui mostrei as formas da letra de meio de palavra e fim de palavra nessa ordem). Perguntei à professora e ela me explicou que essa é uma palavra em aramaico !
Agora vou mostrar dois clássicos da cultura judaica, primeiro um cantado por todos os judeus, de melodia mais triste:
Música: http://www.zemereshet.co.il/FlashPlayer/player.asp?version_id=591
Música: http://www.zemereshet.co.il/FlashPlayer/player.asp?version_id=591
הנה מה טוב
Hine Ma Tov
Eis o que é bom
הִנֵּה מַה-טּוֹב וּמַה-נָּעִים
Hine ma tov uManaim
Eis o que é bom e o que é legal
שֶׁבֶת אַחִים גַּם-יָחַד
Shevet Ahí gam Yahad
Sentar junto aos amigos
Mas eu sinceramente prefiro a versão da tradução do Bruno que faz alusão ao modo como dançamos a música:
Vamos nos abraçar
E dançar pro ladinho
A melodia clássica começa aos 53 segundos. Vejam como a segunda tradução encaixa muito bem.
E agora um clássico mundial, eu diria que o clássico dos clássicos:
הבה נגילה
Hava Naguila
Vamos ser felizes
(2 x) הָבָה ,נָגִילָה הָבָה, נָגִילָה הָבָה וְנִשְׂמְחָה
Hava naguila hava veNishmehá
Vamos ser felizes e felizes
עוּרוּ, עוּרוּ אַחִים
Uru, Uru ahim
Despertem amigos
עוּרוּ אַחִים בְּלֵב שָׂמֵחַ
Uru ahim beLev sameach
Despertem com o coração feliz
Há outra canção menos conhecidas mas que entra a palavra Aleluia (louvor à Ele), é interessante mostrar pra um monte de gente que a palavra é em hebraico enquanto todos acham que é latim. Reparem que aqui todas as letras em hebraico tem pontinhos e o título não. Fiz de propósito para vocês verem graficamente a diferença entre o texto com e sem pontos. Para ler sem pontos temos de conhecer as palavras.
Apesar de no fim da semana ter esfriado, o início foi quente. Eu até consegui ir a praia num dia a tarde. A água estava gélida, mas valeu o passeio. Tel Aviv realmente é particular. Eu vi um senhor de idade, religioso, entrando na água. Até aí nada demais. Mas depois de uma nadada, o senhor saiu da água, se enxugou, colocou parte da veste religiosa e começou a rezar ! Sim, o camarada estava na praia, parou, e começou a reza da tarde ! Achei demais ! Pena que eu não estava com a máquina.
Nossa turma no Ulpan é bem diversa, mas o que até agora me deixou bem confortável é que tem muita gente com a idade próxima da minha mudando de vida, parando o que haviam feito para viver um pouco. Se dando uma chance de mudar novamente, saindo daquela rotina imposta. Cada um com uma história diferente. Isso é bem legal. Algumas pessoas ficaram espantadas quando falei que tinha 29 anos, achavam que eu tinha no máximo 25, que beleza !
Na quinta a noite fomos comemorar o aniversário da Paula, uma aluna em um pub. Quando há algo de bom que se torna cotidiano nem reconhecemos mais como benefício. No Brasil, nos EUA e em vários países da América do Sul a lei que não permite o fumo em locais fechados já existe. Aqui, não sei se existe ou se não cumprem, acredito muito mais na primeira hipótese, mas de todos os modos, como é terrível sair e voltar com cheiro de fumo pra casa.
| Parte da turma - Na fileira de cima Ismail, sudanês, Chris, americana, Mali, equatoriana, seu namorada, Maaike, alemã, Ioni, uruguaio. Na fileira de baixo, Paula, colombiana e Samuel, suíço. |
Depois do pub fomos comer num lugar bem do lado com sanduíches bem gostosos feitos na hora. Consegui voltar pra casa de van e descobri que há transporte de madrugada em Tel Aviv, isso melhora bastante a situação já que permite que eu me desloque pela cidade. As linhas que funcionam são justamente as que passam do lado da minha casa e vão para os pontos de maior interesse na noite.
Na sexta acordei cedo, apesar de ter dormido tarde e fui encontrar o Ilan, que estudou comigo no TTH há milênios. Viva a internet para nos proporcionar o contato com diversas pessoas de diversas épocas ! Fomos ao shuk (feira de Tel Aviv) e foi bem divertido. A feira estava incrivelmente animada, muitas pessoas e muitos turistas.
| Já vi alguns carros das Nações Unidas. |
| Marina de Tel Aviv. |
Na sexta, numa rua paralela ao shuk há uma feira de artesanato, tinha muita coisa bonita por lá. Essa feira rola duas vezes por semana, e um dos expositores é camarada do grupo de brasileiros que mora por aqui.
| Interior de uma loja na rua em que ocorre a feira de artesanato. Tudo lindo e bem caro. |
No shuk tive a melhor prova da falta de educação por estas terras. Esperando o Ilan e sua amiga comprarem presentes para trazer pro Brasil, fiquei do lado de fora em frente a loja oposta àquela que eles estavam. Era uma loja de roupas (extravagantes e feias). O dono da loja veio reclamar comigo que eu estava na frente parado como um segurança e que precisava mostrar a mercadoria porque assim ele vendia.
Ao invés de pedir licença e me explicar ordeiramente ele veio subindo o tom. Eu respondi que não estava entendendo (apesar de ter compreendido o hebraico - ponto positivo da situação). Ele ficou lá berrando e eu imóvel, estático. Não satisfeito ele fingiu que ia colocar uma peça de roupa na parede e veio me empurrando. O cara pode gritar comigo, agora, não me encosta. Diante daquela situação, eu resolvi sair dali. Mas saí exatamente pro lado em que ele estava, empurrando ele e tudo o mais. Ele ficou pianinho.
| Não só lindo, como tinha um perfume incrível. |
Almoçamos num restaurante dentro do shuk chamado Hummus, obviamente ele servia todos os tipos de hummus. Pedimos três e dividimos. Como se come pão quando se come hummus, e como é gostoso o pão. Quem nos atendeu foi um cara bem religioso e gente fina. Ele arranhava português e ganhou nossa simpatia rapidamente. E nós a dele.
| Senhora muçulmana preparando a Laffa, esse gigante pão árabe. |
Para aproveitar a companhia deles, peguei um ônibus que não era o mais adequado pra mim, saltei e fiquei numa parte da cidade em que não conhecia as ruas, apenas uma delas. Bom, consegui caminhar para o norte, achei o rio que corta o norte da cidade. Isso me seguiu como ponto de referência e cheguei em casa. É bom conseguir andar sem mapa.
| Um parque que fica entre a cidade e a praia. |
Na noite deste dia movimentado fui jantar com o Maurício. Fomos a um restaurante bem bacana perto da cinemateca. Comi fígado de galinhas ao molho de vinho e tomei uma cerveja chamada Kwak, num copo bem diferente.
| Cogumelos de entrada. |
Fomos caminhar pelas imediações e fomos à rua Rotschild. Fica bem movimentada com diversos restaurantes e bares. No verão parece que essa rua fica movimentada e acontece a Laila Lavan (noite branca - trocadilho em alusão ao apelido da cidade e à expressão "passar a noite em Branco", a versão para passar a noite em claro em hebraico), uma noite com várias apresentações.
| Fígado de galinha ao molho de vinho. |
| Cerveja Kwak. |
Pra fechar com chave de ouro a semana, hoje fui com o pessoal do Ulpan para um parque chamado Ein Perat, perto do Mar Morto. Era pra fazer uma caminhada. Como ontem eu tinha ido dormir às 3 da manhã depois de jantar e passear, achei que ia ser difícil acordar hoje cedo. Mas não foi nem um pouco. Sete da manhã eu já estava de pé e antes do despertador.
A Chris passou aqui em casa por volta de 9 horas, já estavam no carro o namorado dela, Danny, e o casal Moshe e Judy. Partimos para o parque, mas antes tivemos de parar num posto de gasolina para abastecer, eu precisava comprar água e comida e ainda íamos encontrar a Natália e o marido dela.
Chegamos no posto e logo vi que havia uma barreira linguística, já que a Natália e o Marido não falam inglês, apenas russo e o marido também fala hebraico. Como o carro da Chris estava cheio, fui pro carro da Natália. Imagina que curioso, eu com meu hebraico de principiante e eles sem falar inglês. Mas foi bem legal, eu já comecei quebrando o gelo e contando que minha família era da Rússia, explicando, pausadamente em hebraico.
Foi ótimo porque já to falando, embora catando milho na hora de escolher algumas palavras, mas foi bom porque criamos uma conexão de cara. O caminho foi bem legal, até que em determinado momento eu vi um ponto de controle. Entramos na zona verde (marcação de antes da guerra dos seis dias, em 1967) que leva à Cisjordânia ! Eu não esperava isso e na hora tomei um susto. Mas vi que haviam muitos carros israelenses estavam entrando então me tranquilizei.
| Singela mureta delimitando o território. |
Rapidamente chegamos ao parque. A área é extensa, fizemos diversas trilhas por horas. Em uma delas havia um rio e uma bela piscina natural. Não tive dúvidas e entrei na água. A água estava gélida, mas valeu muito a pena. A caminhada foi bem interessante, levamos lanche, batemos muito papo e foi ótimo conhecer mais o pessoal do Ulpan.
Ótimo detalhe é que a Chris e o Danny são fotógrafos profissionais, então agora é esperar as fotos das câmeras deles e ver como ficaram.
| Chapéu patético chamado Tembel, bem comum aqui. |
| Pausa para foto. |
| A vista do canion, ou waadi em árabe. |
| A galera do Ulpan, eu, Judy, Chris e Natália. |
| Havia um monastério da Ireja Ortodoxa Russa encrustado no desfiladeiro. Não conseguimos visitar. |
| Um belo Canion, vejam como estou na pontinha. |
Na volta, todos famintos, fomos até Abu Gosh, uma vila árabe no caminho entre Jerusalém e Tel Aviv. Comemos no restaurante de mesmo nome (http://www.abugosh-restaurant.co.il). Foi lá que fizeram o maior Hummus do mundo, pesando mais de 4.000 Kgs. A comida estava simplesmente sensacional, e o hummus era delicioso, até agora o número 1 da viagem (e acho difícil encontrar um melhor).
| Restaurante excelente. |
| Diversos tipos de saladas. A azeitona era muito boa também. Dá pra ver o Danny parcialmente na foto. |
| O meu prato, Siniya, carne de carneiro feita como um hamburguer coberto por tahina. |
| Café adociado para terminar a refeição. |
Cheguei em casa 20:00, fazendo quase 12 horas de passeio. Adoro dias assim, como diria o Calvin: "Os dias estão simplesmente lotados".
Isso aqui é uma curiosidade. No Brasil, segundo o Flávio, é proibida a comercialização de sementes de papoula, mas utilizar isso aqui na comida é sensacional, o gosto é incrível. Em hebraico chama-se Pereg.
