domingo, 27 de março de 2011

Que semana !

Esse livro que estou lendo, Rebelião na Terra Santa (eu não achei o livro em nenhuma loja no Brasil, mas no Google Books tem) tem várias reflexões bem interessantes. Uma questão que ele levanta é a briga que parece que vem de longa data entre árabes e judeus.

No livro, Begin fala sobre como os ingleses se tornaram especialistas em gerenciar um império enorme, tanto em tamanho geográfico quanto em população, sem ter um exército igualmente enorme. Aqui em Israel o que eles fizeram foi gerar pânico, primeiramente, nos judeus, falando que ali estavam para protegê-los dos árabes. Obviamente, por trás, eles instigavam os árabes a atacarem os judeus.

E quando isso parou de funcionar, quando os judeus começaram a explodir diversas instalações inglesas, os ingleses tentaram fazer o contrário, dizendo que estavam ali para proteger os árabes dos judeus. Parece simplista, mas há outros fatores envolvidos. Mas me pareceu bastante razoável o início de um conflito que parece tão forte agora. Ainda mais depois de eu ter estudado que em grande parte de sua história os povos mantiveram relações muito mais do que cordiais, tendo vivido um século chamado de Época de Ouro, ainda na Espanha. 

Toda essa introdução, e a leitura do livro, tornam-se bem interessantes tendo em vista o que aconteceu nessa semana em Jerusalém e o que vem acontecendo na faixa de Gaza. Em Jerusalém uma bomba foi detonada ferindo dezenas de pessoas, deixando algumas em estado grave e matando até o momento uma senhora. Matar alvos civis é uma covardia. Não há razão alguma que faça sentido a morte de alvos civis por escolha.

O outro fato que vem acontecendo é que Israel pode vir a lançar uma operação na faixa de Gaza maior do que a que aconteceu no final de 2008 e início de 2009. Israel vem sendo alvos de mísseis há um bom tempo e os ataques se intensificaram nesta semana. Alguns mísseis atingiram Ashdod, que fica a 37 Km de Tel Aviv, e outros Beer Sheva, mais ao sul.

Choveu novamente em Tel Aviv e as ruas alagaram

O Pessach vem se aproximando e o Ulpan vai parar por duas semanas (e eu estou pagando por isso...). Pessach é a festa na qual comemoramos a saída do Egito. É nessa festa que ocorreu a passagem bíblica das 10 pragas. 

Durante Pessach não se come nada que seja fermentado. O Flávio já me adiantou que os mercados tem seções que ficam fechadas e não se vende pão em nenhum lado. Pelo menos acredito que aqui será bem mais fácil cumprir todas as determinações do que no Brasil, onde nada muda, apenas os nossos hábitos, o que exigia uma adaptação incrível. 

Eu lembro que a vovó Fina adorava Pessach, sempre me falava. Ela adorava a comida. E eu sempre me perguntava como podia ! Você deixa de comer arroz e outros cereais (se você for Ashkenazi - judeus oriundos da europa), a farinha que utilizamos é muito mais pesada do que a que se usa normalmente, quase tudo tem ovo e muita coisa é frita. O resultado é pesado para o estômago, e para os que te circundam.

Vai ser interessante que no Ulpan vai ter uma comemoração. Isso é bem legal, já que grande parte da turma, e talvez do Ulpan, não seja de judeus. Para já preparar o pessoal, nessa semana fomos para o salão e as músicas foram apresentadas. Não só as de Pessach mas músicas tradicionais judaicas. Incrível começar a entender as letras e ver que nem sempre são poemas incríveis. 

Vão alguns exemplos:


עבדים היינו
Havadim Haínu
Escravos, nós fomos

עֲבָדִים הָיִינוּ, הָיִינוּ
Havadim Hainú, Haínú
Escravos, nós fomos

עַתָּה בְּנֵי חוֹרִין, בְּנֵי חוֹרִין
Atá bnei rorin, bnei rorin
Agora, um povo livre, um povo livre

עֲבָדִים הָיִינוּ
Havadim Hainú 

עַתָּה, עַתָּה בְּנֵי חוֹרִין, בְּנֵי חוֹרִין
Atá, atá bnei rorin, bnei rorin

O curioso aqui é que na segunda frase, a última palavra (que também aparece antes) termina com a letra equivalente a n (ן נ - aqui mostrei as formas da letra de meio de palavra e fim de palavra nessa ordem) no alfabeto hebraico, apesar de pela gramática o  plural masculino terminar em m (ם מ - aqui mostrei as formas da letra de meio de palavra e fim de palavra nessa ordem). Perguntei à professora e ela me explicou que essa é uma palavra em aramaico ! 

Agora vou mostrar dois clássicos da cultura judaica, primeiro um cantado por todos os judeus, de melodia mais triste:

Música: http://www.zemereshet.co.il/FlashPlayer/player.asp?version_id=591
הנה מה טוב
Hine Ma Tov
Eis o que é bom


הִנֵּה מַה-טּוֹב וּמַה-נָּעִים
Hine ma tov uManaim
Eis o que é bom e o que é legal

שֶׁבֶת אַחִים גַּם-יָחַד
Shevet Ahí gam Yahad
Sentar junto aos amigos

Mas eu sinceramente prefiro a versão da tradução do Bruno que faz alusão ao modo como dançamos a música:

Vamos nos abraçar
E dançar pro ladinho

A melodia clássica começa aos 53 segundos. Vejam como a segunda tradução encaixa muito bem.

E agora um clássico mundial, eu diria que o clássico dos clássicos:

הבה  נגילה
Hava Naguila
Vamos ser felizes

(2 x) הָבָה ,נָגִילָה הָבָה, נָגִילָה הָבָה וְנִשְׂמְחָה
Hava naguila hava veNishmehá
Vamos ser felizes e felizes 

עוּרוּ, עוּרוּ אַחִים
Uru, Uru ahim
Despertem amigos

עוּרוּ אַחִים בְּלֵב שָׂמֵחַ
Uru ahim beLev sameach
Despertem com o coração feliz 

Há outra canção menos conhecidas mas que entra a palavra Aleluia (louvor à Ele), é interessante mostrar pra um monte de gente que a palavra é em hebraico enquanto todos acham que é latim. Reparem que aqui todas as letras em hebraico tem pontinhos e o título não. Fiz de propósito para vocês verem graficamente a diferença entre o texto com e sem pontos. Para ler sem pontos temos de conhecer as palavras.

Apesar de no fim da semana ter esfriado, o início foi quente. Eu até consegui ir a praia num dia a tarde. A água estava gélida, mas valeu o passeio. Tel Aviv realmente é particular. Eu vi um senhor de idade, religioso, entrando na água. Até aí nada demais. Mas depois de uma nadada, o senhor saiu da água, se enxugou, colocou parte da veste religiosa e começou a rezar ! Sim, o camarada estava na praia, parou, e começou a reza da tarde ! Achei demais ! Pena que eu não estava com a máquina.

Nossa turma no Ulpan é bem diversa, mas o que até agora me deixou bem confortável é que tem muita gente com a idade próxima da minha mudando de vida, parando o que haviam feito para viver um pouco. Se dando uma chance de mudar novamente, saindo daquela rotina imposta. Cada um com uma história diferente. Isso é bem legal. Algumas pessoas ficaram espantadas quando falei que tinha 29 anos, achavam que eu tinha no máximo 25, que beleza !

Na quinta a noite fomos comemorar o aniversário da Paula, uma aluna em um pub. Quando há algo de bom que se torna cotidiano nem reconhecemos mais como benefício. No Brasil, nos EUA e em vários países da América do Sul a lei que não permite o fumo em locais fechados já existe. Aqui, não sei se existe ou se não cumprem, acredito muito mais na primeira hipótese, mas de todos os modos, como é terrível sair e voltar com cheiro de fumo pra casa.

Parte da turma - Na fileira de cima Ismail, sudanês, Chris, americana, Mali, equatoriana, seu namorada, Maaike, alemã, Ioni, uruguaio. Na fileira de baixo, Paula, colombiana e Samuel, suíço.

Depois do pub fomos comer num lugar bem do lado com sanduíches bem gostosos feitos na hora. Consegui voltar pra casa de van e descobri que há transporte de madrugada em Tel Aviv, isso melhora bastante a situação já que permite que eu me desloque pela cidade. As linhas que funcionam são justamente as que passam do lado da minha casa e vão para os pontos de maior interesse na noite.

Na sexta acordei cedo, apesar de ter dormido tarde e fui encontrar o Ilan, que estudou comigo no TTH há milênios. Viva a internet para nos proporcionar o contato com diversas pessoas de diversas épocas ! Fomos ao shuk (feira de Tel Aviv) e foi bem divertido. A feira estava incrivelmente animada, muitas pessoas e muitos turistas. 


Já vi alguns carros das Nações Unidas.


Marina de Tel Aviv.

Na sexta,  numa rua paralela ao shuk há uma feira de artesanato, tinha muita coisa bonita por lá. Essa feira rola duas vezes por semana, e um dos expositores é camarada do grupo de brasileiros que mora por aqui.


Interior de uma loja na rua em que ocorre a feira de artesanato. Tudo lindo e bem caro.




No shuk tive a melhor prova da falta de educação por estas terras. Esperando o Ilan e sua amiga comprarem presentes para trazer pro Brasil, fiquei do lado de fora em frente a loja oposta àquela que eles estavam. Era uma loja de roupas (extravagantes e feias). O dono da loja veio reclamar comigo que eu estava na frente parado como um segurança e que precisava mostrar a mercadoria porque assim ele vendia.


Ao invés de pedir licença e me explicar ordeiramente ele veio subindo o tom. Eu respondi que não estava entendendo (apesar de ter compreendido o hebraico - ponto positivo da situação). Ele ficou lá berrando e eu imóvel, estático. Não satisfeito ele fingiu que ia colocar uma peça de roupa na parede e veio me empurrando. O cara pode gritar comigo, agora, não me encosta. Diante daquela situação, eu resolvi sair dali. Mas saí exatamente pro lado em que ele estava, empurrando ele e tudo o mais. Ele ficou pianinho.

Não só lindo, como tinha um perfume incrível.
Almoçamos num restaurante dentro do shuk chamado Hummus, obviamente ele servia todos os tipos de hummus. Pedimos três e dividimos. Como se come pão quando se come hummus, e como é gostoso o pão. Quem nos atendeu foi um cara bem religioso e gente fina. Ele arranhava português e ganhou nossa simpatia rapidamente. E nós a dele.



Senhora muçulmana preparando a Laffa, esse gigante pão árabe.
Para aproveitar a companhia deles, peguei um ônibus que não era o mais adequado pra mim, saltei e fiquei numa parte da cidade em que não conhecia as ruas, apenas uma delas. Bom, consegui caminhar para o norte, achei o rio que corta o norte da cidade. Isso me seguiu como ponto de referência e cheguei em casa. É bom conseguir andar sem mapa.

Um parque que fica entre a cidade e a praia.
Na noite deste dia movimentado fui jantar com o Maurício. Fomos a um restaurante bem bacana perto da cinemateca. Comi fígado de galinhas ao molho de vinho e tomei uma cerveja chamada Kwak, num copo bem diferente. 

Cogumelos de entrada.
Fomos caminhar pelas imediações e fomos à rua Rotschild. Fica bem movimentada com diversos restaurantes e bares. No verão parece que essa rua fica movimentada e acontece a Laila Lavan (noite branca - trocadilho em alusão ao apelido da cidade e à expressão "passar a noite em Branco", a versão para passar a noite em claro em hebraico), uma noite com várias apresentações.

Fígado de galinha ao molho de vinho.

Cerveja Kwak.
Pra fechar com chave de ouro a semana, hoje fui com o pessoal do Ulpan para um parque chamado Ein Perat, perto do Mar Morto. Era pra fazer uma caminhada. Como ontem eu tinha ido dormir às 3 da manhã depois de jantar e passear, achei que ia ser difícil acordar hoje cedo. Mas não foi nem um pouco. Sete da manhã eu já estava de pé e antes do despertador.

A Chris passou aqui em casa por volta de 9 horas, já estavam no carro o namorado dela, Danny, e o casal Moshe e Judy. Partimos para o parque, mas antes tivemos de parar num posto de gasolina para abastecer, eu precisava comprar água e comida e ainda íamos encontrar a Natália e o marido dela.

Chegamos no posto e logo vi que havia uma barreira linguística, já que a Natália e o Marido não falam inglês, apenas russo e o marido também fala hebraico. Como o carro da Chris estava cheio, fui pro carro da Natália. Imagina que curioso, eu com meu hebraico de principiante e eles sem falar inglês. Mas foi bem legal, eu já comecei quebrando o gelo e contando que minha família era da Rússia, explicando, pausadamente em hebraico.

Foi ótimo porque já to falando, embora catando milho na hora de escolher algumas palavras, mas foi bom porque criamos uma conexão de cara. O caminho foi bem legal, até que em determinado momento eu vi um ponto de controle. Entramos na zona verde (marcação de antes da guerra dos seis dias, em 1967) que leva à Cisjordânia ! Eu não esperava isso e na hora tomei um susto. Mas vi que haviam muitos carros israelenses estavam entrando então me tranquilizei.

Singela mureta delimitando o território.

Rapidamente chegamos ao parque. A área é extensa, fizemos diversas trilhas por horas. Em uma delas havia um rio e uma bela piscina natural. Não tive dúvidas e entrei na água. A água estava gélida, mas valeu muito a pena. A caminhada foi bem interessante, levamos lanche, batemos muito papo e foi ótimo conhecer mais o pessoal do Ulpan.


Ótimo detalhe é que a Chris e o Danny são fotógrafos profissionais, então agora é esperar as fotos das câmeras deles e ver como ficaram.

Chapéu patético chamado Tembel, bem comum aqui. 

Pausa para foto.

A vista do canion, ou waadi em árabe.

A galera do Ulpan, eu, Judy, Chris e Natália.

Havia um monastério da Ireja Ortodoxa Russa encrustado no desfiladeiro. Não conseguimos visitar.

Um belo Canion, vejam como estou na pontinha.
Na volta, todos famintos, fomos até Abu Gosh, uma vila árabe no caminho entre Jerusalém e Tel Aviv. Comemos no restaurante de mesmo nome (http://www.abugosh-restaurant.co.il). Foi lá que fizeram o maior Hummus do mundo, pesando mais de 4.000 Kgs. A comida estava simplesmente sensacional, e o hummus era delicioso, até agora o número 1 da viagem (e acho difícil encontrar um melhor).

Restaurante excelente.
Diversos tipos de saladas. A azeitona era muito boa também. Dá pra ver o Danny parcialmente na foto.

O meu prato, Siniya, carne de carneiro feita como um hamburguer coberto por tahina.

Café adociado para terminar a refeição.
Cheguei em casa 20:00, fazendo quase 12 horas de passeio. Adoro dias assim, como diria o Calvin: "Os dias estão simplesmente lotados".

Isso aqui é uma curiosidade. No Brasil, segundo o Flávio, é proibida a comercialização de sementes de papoula, mas utilizar isso aqui na comida é sensacional, o gosto é incrível. Em hebraico chama-se Pereg.

domingo, 20 de março de 2011

Tel Aviv - Yaffo

O calor aqui ainda não deu as caras, mas os dias tem ficado menos frios. Já tem uns dois dias que caminho no sol e sinto que não vai ser fácil o verão. O sol queima seriamente. Quinta senti isso voltando do Ulpan pra casa, mas ontem foi pior.

O trânsito é uma loucura. Já presenciei diversas discussões. As pessoas batem boca na janela, uma olhando pra outra cara a cara. Também na rua já vi isso. Onde já se viu ficar falando à 10 centímetros de distância, esbravejando. 

Quinta depois do Ulpan fui até Yaffo ver se encontrava uma fantasia legal. Aqui além dos ônibus você pode pegar também umas vans. Elas fazem quase o mesmo caminho dos ônibus, custam o mesmo e param em qualquer lugar.

Eu fui no banco da frente. É costume aqui as pessoas passarem o dinheiro pra frente pra você pagar ao motorista. Sinceramente, porque as pessoas já não entram com o dinheiro trocado? Porque ficam enchendo os outros para passar moeda? Eu por acaso tenho cara de trocador? 

Esse é o princípio que eu adoraria que usassem por aí no trânsito. Imagine sempre que a pessoa que está atrás de você está prestes a parir, você vai ficar murrinhando na frente dela? Seja rápido, respeite os outros. Não gaste o tempo dos outros à toa. Seja solidário com o tempo alheio !

Na van tinham umas meninas falando inglês e hebraico sem sotaque algum. Ou pelo menos eu não percebi. Isso aqui é uma verdadeira babel. Tu escuta todos os tipos de idiomas, de todos os lados. É bem interessante. A quantidade de gente que fala diversos idiomas impressiona. Você escuta de todo, em todos os lugares. 

Em Yaffo há uma rua onde se concentram as lojas. Pra começar, a impressão que eu tive de Yaffo é que tem ruas menores, mais próximas umas das outras, mais cara de centro. Mas eu estive somente na parte do comércio, então não podia falar muito. A rua onde ficavam as tais lojas não era extensa, e tampouco eram numerosas as lojas. Entrei em algumas, esperando até em fila do lado de fora, mas não achei nada fora do comum. Estava sem fantasia.

Resolvi voltar à feira de Tel Aviv (Shuk Carmel), e acabei comprando a fantasia do Leo, que tinha ficado em casa porque teve que resolver uns problemas pessoais. Engraçado, quinta com clima de sexta e tudo funcionando com o pessoal querendo ir pra casa. 

Voltei andando do Shuk para o shopping, sabia que no caminho encontraria um chapéu verde que eu queria comprar pra fantasia que eu queria armar. Consegui comprar o chapéu e dali fui buscar suspensórios. Não encontrei no shopping, entrei numa loja na rua e a vendedora indicou uma loja no shopping. Ela indicou a loja mais cheia do shopping com fila pra entrar. Fila não, porque israelense não faz fila. Era uma zona pra entrar, e eu consegui de fora saber que não havia o suspensório da cor que eu queria.

De saco cheio resolvi voltar pra casa, tomar um banho, já que a noite iria jantar com a família do Flávio, em motivo de seu aniversário. Esperando o ônibus na rua Dizengoff vi um camarada falando em árabe pelo celular. Falando não, discutindo ou brigando com alguém. Que cena engraçada, porque as palavras que ele pronunciava eram muito engraçadas, e repetia uns fonemas usando r e l, o que dava um som muito engraçado. Fiquei rindo sozinho no ponto de ônibus.

Cheguei em casa, tomei banho e logo em seguida o Flávio apareceu aqui pra me buscar. Fomos ao Kimel em Tel Aviv, um restaurante gourmet muito bom. A decoração era incrível, parecia uma casa do interior do Brasil, com fogão antigo, móveis antigos, toda de madeira. Os vegetais e legumes ficavam no salão, clima bem agradável.



Os garçons falavam ótimo inglês e os pratos eram excelentes. Eu pedi um Beef com Fois Gras, purê de batatas ao molho de pimenta. Eu e a Gabi dividimos um vinho israelense muito bom. Depois dessa comilança pedimos 3 sobremesas para dividir. Uma melhor que a outra. Foi uma janta pra lembrar das ótimas refeições que eu tive na França.



O Flávio me deixou em casa e me ajudou a subir com as malas. Era minha mudança. Duas malas. O ser humano precisa de pouca coisa pra ser feliz. E nos acostumamos com condições diversas muito facilmente. A Gabi me emprestou um livro muito legal, é a biografia do Menahen Begin, que foi primeiro ministro de Israel. 

Ele ficou preso na Rússia e comentou isso exatamente depois que ficou 7 dias e 7 noites confinado na solitária com condições precárias de higiene. Ele falou que o ser humano nessa situação clama por voltar à situação anterior, que era de prisão, restrição de liberdade, mas mesmo assim, preso. 

Ele fala o seguinte: "Talvez não existam graus de felicidade, mas existem certamente os de sofrimento. Fazendo-se descer um homem ao primeiro grau de sofrimento, aspirará voltar ao ponto de partida. Mas, se continua descendo a escala de sofrimento, não desejará voltar ao estágio de 'não sofrimento', mas ao anterior, ao de 'sofrimento menor'".

Dormi cedinho nessa noite porque no dia seguinte iria encontrar com o Flávio e a Gabi para tomar café. Cheguei cedo em Kfar Saba. Tel Aviv estava deserta às 6:30 da manhã da sexta. Ou seja, do que seria o sábado. Fui cedo logo ao correio buscar o livro que eu tinha comprado da Amazon: 501 Hebrew Verbs. Aproveitando o momento e o frete comprei mais outros livros: Astronomy for Dummies, Ghoust Train to the Eastern Star e How To Brew ! Foi uma boa compra.

Esquina improvável.
Tomamos café-da-manhã no Reviva ve Celia em Ramat HaSharon. O lugar é excelente, já era conhecido e ficou mais conhecido depois de um programa do tipo reality show aqui chamado Master Chef. Pedimos o café-da-manhã livre. Tudo muito saboroso. Ovos, diversos tipos de queijo, um cereal que parece ter sido feito lá, uma bebida quente e outra fria. Tudo muito bom mesmo.


De lá voltamos à Kfar Saba para buscar as crianças. Antes consegui passar em algumas lojas e terminar minha fantasia. Comprei um suspensório e uma meia alta. Pronto, vou de alemão da Baviera ! Buscamos as crianças e fomos ao shopping.

Oznei Haman (orelhas de Haman), doce tradicional de Purim. 
O shopping estava incrível. Havia uma banda tocando The Doors. A Bel se acabou de dançar Doors! Dê boa música às crianças e elas apreciarão. Nesse mesmo princípio, dê boa televisão ao povo, e eles apreciarão ! Vi aqui um vídeo do Caetano tocando Alegria Alegria. Isso era a TV ! Porque não podemos ter o equivalente hoje? Porque temos que engolir big brother e novelas?







Limpamos a casa e arrumamos tudo para receber uns amigos do Flávio. Por coincidência ele conhecia quase todo mundo que eu conheço aqui. É incrível como os brasileiros aqui se conhecem todos. Ficamos a tarde inteira por lá. E a noite rolou o lanche. Pra variar, muita comida. 

O Flávio me trouxe a Tel Aviv, já tarde. É bem relax essa hora da noite. Fui dar uma volta no porto e percebi que estou muito perto de boa parte da vida noturna de Tel Aviv. Voltei pra casa e fui dormir, estava muito cansado.

Esquina de onde estou morando. Essa é uma das entradas do Namal (o porto que foi reformado).

Acordei cedo no sábado e fui ler um pouco do livro. Marquei com o Mauricio e com o Marcelo de passear na praia. O passeio foi irado. Fomos à Yaffo que é bem interessante. A cidade é incrível, tem a parte velha que é muito legal. Passamos por umas escadarias, tudo bem interessante, sempre feito daquela pedra bege. 

Ao fundo, a cidade velha de Yaffo.




Piquenique em Yaffo com vista para Tel Aviv. Na verdade esse pessoal aí tinha feito um queijos e vinhos ! 
Parece cenário de Aladdin.
Aliás, isso me incomoda um pouco aqui. Tudo é bege. Não tem cor. Monótono, ou melhor, monocromático. Mas o passeio foi bem legal. Andamos por toda a extensão da praia de Yaffo à Tel Aviv e de volta à Yaffo. Passei por várias praias. Descobri que o frescobol é bem famoso aqui. Jogam desde os anos 60 e é tanta gente jogando que o barulho é uma espécie de sinfonia na praia. 

Essa pintura fica do lado de um bar. Tem vários rostos conhecidos.





Comemos no Abulafia, não sentamos, pedimos apenas um Schawarma. Eu quero voltar nesse restaurante. Ele é bem antigo e bem tradicional por aqui. Vi vários pratos saborosíssimos e apetitosos. Não dá pra não comer nele. Mas não pode ser em feriado porque enche muito.




Andamos bastante por Tel Aviv e Yaffo indo e voltando. Conheci diversas praias, o programa tradicional do turista. Por ser Purim tem muita gente fantasiada pelas ruas.

Interior de uma mesquita em Yaffo.
A noite fomos passar o Purim em Yaffo. Foi bem legal, apesar de não estar muito cheio. Recentemente saiu uma lei aqui em que as pessoas não podem beber na rua e nem comprar álcool depois das onze da noite. Há sentido na medida, torna as coisas mais controladas. Às vezes para o bem coletivo são necessários alguns sacrifícios nas liberdades individuais.

Não era Oktoberfest.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Purim Purim

Parece que tudo aconteceu de uma só vez ! Mas não foi tão simples assim.

Após muita busca finalmente encontrei um ap. Já aluguei um quarto pelo período exato de 5 meses. O ap é colado na praia, muito perto do porto que foi revitalizado e agora é uma enorme área de lazer. Perto tem vários restaurantes e lojas. O único ponto caído é que não tem janela no meu quarto, vamos ver como lido com isso. Mas serão só 5 meses, então pela bela economia que fiz, já digo que valeu.

Fica aqui: 
http://www.google.com/maps/ms?ie=UTF8&hl=pt-BR&msa=0&msid=216040076753900798597.00049e9a3d629f1a783cc&ll=32.096754,34.774389&spn=0.005072,0.009645&z=17

Anteontem eu entrei na academia com o Leo. Pertinho da casa dele, pertinho da minha casa também. Aliás, moramos no mesmo bairro. A academia é bem mais barata que no Brasil e é bem legal. Agora tenho como pendência o visto e o plano de saúde (apesar de meu plano do cartão estar valendo).

Domingo agora é Purim, ou melhor, sábado a noite e domingo até o anoitecer. Purim vem da palavra hebraica Pur, loteria, sorteio.

Vou fazer um resumo do que é Purim. Há muitos anos atrás, na cidade Persa de Shushan havia um rei chamado Achashverosh (lê-se Á-rrás-vê-rrósh) que governava 127 estados desde a Índia até a África. Depois de uma festa de 7 dias, o rei teve a magnífica idéia de exibir sua mulher em público. 

Vasti (lê-se Vá-shti), a esposa do rei, não gostou muito da idéia e se negou a ir à exibição. O rei em outro rompante de inteligência resolveu fazer um concurso de beleza em todo o seu reino. Aparece então o nosso herói e nosso heroína.

Mordechai (lê-se Mor-de-rrái) fala para sua sobrinha Ester participar do concurso. Qual não é a surpresa quando ester leva o caneco pra casa ! Aqui se encerra a parte 1 da história. Guarde a informação que agora Ester é a escolhida do rei.

No meio tempo Mordechai presencia dois cidadãos, Bigtan e Teresh, conspirando para matar o rei. Mordechai avisa à Ester que avisa ao rei. O rei pede para que essa história seja escrita em seu diário (ou livro dos acontecimentos do rei). Parte 2 terminada. Guarde essa informação.

Surge então o carrasco da história. Haman (lê-se Rá-Mán) é o Hitler da época. Achashverosh gostava muito de seu ministro, Haman, e decretou que todos os cidadãos deveriam reverenciar Haman quando esse passasse. A reverência era curvar-se. Mas como Mordechai era judeu, e judeu algum se curva a não ser para D-us, Haman fica bem nervoso e resolve que não só Mordechai, mas todos os judeus deveriam ser mortos.

Haman resolve executar o seu plano e faz um sorteio (Pur) para escolher a data da execução dos judeus. Mordechai descobre isso e avisa Ester que ela precisa fazer algo. Ester, lembrem-se, era a escolhida do rei. Apesar de estar com medo, ela pede uma audiência com o rei (não era a única esposa, obviamente) e também convida Haman.

Nessa noite há um banquete onde todos jantam. Nessa noite o rei tem insônia e pedem para que leiam aquele diário dele. Ele relembra a história de Mordechai e pergunta o que fizeram para ele, e ele descobre que nada havia sido feito.

Como Haman estava por perto, o rei lhe pergunta o que um homem que houvesse feito algum grande serviço ao rei merecia. Haman pensando se tratar dele diz que o homem deveria ser vestido com as roupas reais e ser conduzido pelo palácio no cavalo do rei. Adivinha só ! Haman conduz Mordechai exatamente como descrito. Isso já no dia seguinte.

Na noite deste mesmo dia, Haman e o rei vão à segunda refeição na casa de Ester. Nesta refeição ela revela que é judia e que há um plano para que o seu povo seja exterminado. Pronto, aí o lance está todo enrolado, mas piora.

Haman se liga que a Ester vai revelar que é ele o mentor do plano, ele desesperado vai ao quarto de Ester implorar que ela não revele essa informação. O rei vê Haman no quarto dela, na cama e fica irado. Ester explica tudo ao rei que resolve que Haman deveria ser morto e não os judeus. Mais irônico ainda é que Haman é morto na forca que havia preparado para Mordechai.

Essa história é uma síntese da história dos judeus ao longo dos séculos. Nessa festa costumamos nos (1) fantasiar, (2) dar ajuda aos necessitados, (3) trocar presentes, (4) escutar à leitura da história nas sinagogas (Meguilát Ester), (5) comer uma refeição festiva (farta, como eu gosto!) e também (6) beber a ponto de não conseguir diferenciar uma pessoa boa de uma pessoa má. Dizem que passar em algum bairro religioso pra ver tudo isso acontecendo é uma experiência incrível ! 


Bom, dado todo esse histórico, de prático, hoje rolou uma festa irada no Ulpan. Muita gente foi fantasiada, eu fui com a minha camisa que tem um bebê (como se eu estivesse carregando), e todos assistimos a diversas apresentações feitas pelos alunos.




Algumas pessoas cantaram e tocaram violão, uma brasileira tocou A banda, outros dançaram (tinha um cara que dançava como o Michael Jackson, uma menina da minha turma fez dança do ventre) e rolou também teatro. Foi bem divertido.



O Rafa nessa semana cada dia foi vestido de alguma coisa pra escola. Domingo foi de pijama, segunda era permitido fazer qualquer coisa na cabeça, terça era roupa livre e assim por diante. Na rua você já vê muita gente se fantasiando. É muito legal viver uma festa como essa no país onde todo mundo faz. É muito legal estar inserido na cultura religiosa.

Ainda estou procurando minha fantasia e não achei nada que fosse legal e barato. Quando o traje é completo o valor chega a 250 shekalim, que segundo o Google são por volta de 120 reais. Eu não me incomodaria em pagar o preço se o tecido da fantasia fosse decente. Agora, pagar por esse pano mais fino que papel sem poder usar outra vez ainda não é minha vontade.

Todo dia de manhã eu pego o trem e vou para a estação central de Tel Aviv. Lá eu pego um ônibus, no ponto final. Eu fico estupefato como não formam fila aqui. E não é só no ônibus, em todos os lugares é igual. Uma zona, todo mundo se amontoando, não consigo entender. 

Tem também outra coisa que é conhecida do israelense, é a grosseria. O Flávio me contou que outro dia encontrou com um conhecido que mora em outra cidade aqui num final de semana e perguntou na maior inocência: 

- Oi, tudo bom! O que você faz por aqui? 
E o camarada responde: 
-Porque, é proibido?

E ainda outro diálogo incrível que vimos ontem no mercado. Várias pessoas com compras e apenas 2 caixas abertos. Uma mulher de um caixa estava sentado num 3 posto mas não estava com o caixa aberto. Uma senhora se aproxima e pergunta:

-Será que você poderia abrir outro caixa.
E a caixa responde:
-Porque você está pedindo pra mim?

São apenas exemplos de que o que rola aqui não é assertividade e sim falta de educação. Ainda bem que ainda não tive nenhum episódio desses. 

Outra coisa que me chamou atenção aqui é que vários carros tem uma fitinha no retrovisor. Eu me informou sobre o que se tratava e é uma fita em apoio a Gilad Shalit, o soldado israelense que foi capturado e é refém do Hamas na faixa de Gaza desde 2006. A vida israelense é permeada por exército e conflitos. Não é fácil separar tudo.

Inclusive, no sábado passado aconteceu um massacre na cidade de Itamar (pronúncia igual, mas escrita diferente: איתמר). Ainda não se sabe se um ou dois palestinos invadiram uma casa numa região de disputa territorial, e esfaquearam 5 membros de uma família. Os pais e 3 crianças de 11 anos, 3 anos e um bebê. Outros 3 filhos escaparam do massacre indo para uma casa vizinha, eles tinha 12, 6 e 3 anos.

As circunstâncias me espantaram. Estavam dormindo e ainda foram mortas 3 crianças. Infelizmente atos como esse não ajudam no processo de paz. Só faz o ódio do outro lado recrudescer. Não é esse o caminho, nem pra lá, nem pra cá.

terça-feira, 15 de março de 2011

Chuva, passeio e viagem

Na semana passada peguei uma chuva torrencial em Tel Aviv. No caminho já vi o que seria, a previsão do tempo já tinha avisado, então eu fui com meu casaco impermeável. Esse casaco é excelente porque além de impermeável, ele corta o vento mas não esquenta muito. 

O caminho até o ônibus foi tranquilo, chuva moderada. Mas dentro do ônibus vi que o negócio foi apertando. Na rua corriam rios de água, o trânsito que normalmente já é mal educado piorou bastante. Os sinais eram respeitados esporadicamente, os pedestres não tinham preferência alguma e os carros passavam sem critérios pela água jogando-a em todas as direções, inclusive pra calçada, molhando a todos.

No meio de todo esse caos vi um religioso passando pela rua com o chapéu envolto num plástico. Sim, o chapéu ia na cabeça do sujeito. Que coisa mais curiosa, mas sintetiza bem o que é Tel Aviv.

Antes de sair do ônibus, coloquei a mochila e depois vesti o casaco, assim protegi os livros. Malandragem de anos de chuvas torrenciais no Rio. Peguei muita chuva até o Ulpan, minha calça estava completamente molhada. Salvei o tênis até chegar à rua do Ulpan, pisei numa poça e senti instantaneamente a água gelada tocar no pé. Essa sensação é extremamente desagradável porque você sabe que pode ser que o dia inteiro fique com o pé molhado.


No dia seguinte apareceu um uruguaio no curso que estava vindo pelo MASA, o programa que eu viria mas que decidi não utilizar. Visitei as instalações oferecidas e ainda bem que não vim por ele. As condições eram aquém do que eu queria.


Na quarta a noite comecei a sentir uma dor estranha na barriga, comecei a passar mal um pouco mais tarde. Segundo os meus primos, quase todo mundo que vem pra Israel, uma hora ou outra acaba contraindo algum vírus desconhecido de nosso corpo e a reação é essa. Dores e banheiro. Muito banheiro. Quase não dormi a noite e na manhã seguinte foi meu cômodo predileto.

Felizmente melhorei após o almoço e consegui me recuperar para as atividades do fim de semana. Na sexta as crianças tem as atividades normais, então, como de costume acordamos cedo. Fiquei em casa até a hora de buscar as crianças na escola. Depois de tanto tempo em casa eu precisava sair um pouco.

Por estes dias chega a festa de Purim na qual as pessoas se fantasiam. Fui conferir as fantasias com o Flávio e o Rafa. Eu não achei nada que fosse legal por um preço que me satisfizesse. Voltamos pra casa por volta de 15hs para o almoço. 

Depois do almoço limpamos a casa. Eu gosto de fazer isso. Acho muito importante pra manter a humildade e também pra valorizar os trabalhos que se valem do esforço físico. No Brasil é incomum e existe um preconceito com respeito a esse tipo de atividade. 


Mas em outros países como EUA, na Europa e pelo que vejo aqui, o serviço é caro e muita gente opta por não ter ninguém entrando em suas casas. Inclusive lembro de ter visto isso numa reportagem sobre os congressitas na Suécia. Além de todo esse lado, gosto de fazer um trabalho físico para compensar o fato de só fazer coisas usando o cérebro. 

Uma coisa relacionada a isso que acho muito legal que há nos EUA é que a partir de 16 anos, nas férias, ao invés de ficar 3 meses à toa, as pessoas trabalham nos mais diversos tipos de trabalho. Além de ganhar responsabilidade faz muito bem ao ego de todos.


Já sábado, pela manhã fomos jogar bola na escola do Rafa. Imaginem 6 crianças de 7 a 12 anos de cada lado, mais eu e o Flávio. Corrida alucinada das crianças, comecei no gol e quando fui pra linha vi que andava cansado.

Na mesma tarde visitamos a Tia Mimi, irmã da minha avó Fina, mãe do meu pai. Ela mora em um Kibutz, mais ao norte do país, perto de Haifa. Viajamos uma hora e já estávamos no norte do país, perto do Líbano, a questão de dimensão é bem relevante por aqui e nos deixa, brasileiros, bem confusos dado o tamanho continental de nosso país.

 

Antes de ir ao Kibutz dela, passamos pelo templo Baha'i que fica em Haifa, bem perto do Kibutz. O lugar é bem bonito, mas a visitação ao interior só marcando. Aproveitamos para visitar os jardins. Confesso que só sei que esta fé existe porque sabia da existência deste templo em Israel.


 

De lá seguimos para o Kibutz da tia Mimi. O fato interessante é que a Gabi fez um bolo pra levar pra tia Mimi. Adivinhem quem carregou o bolo no colo durante a viagem inteira?


A história dos Kibutzim é bem interessante. Veio da necessidade de estabelecer colônias agrícolas em um país recém criado. A idéia era de uma vida em comunidade, com todos ajudando em todas as tarefas. Essa idéia soou muito bem para a URSS que criou uma certa empatia ao Estado Judeu no início de sua existência.

Atualmente nem só de agricultura vivem os Kibutzim. O da tia Mimi tem uma fábrica de farinha e também é sede da empresa Cromagen, que fabrica sistemas de aquecimento de água baseado em painéis solares.

Além desse lado econômico, há muita vida social por lá. Vimos que depois do almoço eles se reúnem e por acaso, neste dia algumas crianças estavam apresentando algumas músicas para uma pequena platéia.

Também há aula de diversos assuntos. A tia Mimi pintou quase todos os quadros da casa dela. Também faz cerâmica e vi algumas obras dela. E neste mesmo dia, ela andava pela manhã numa reunião com outras senhoras. A vida é intensa!


A tarde foi bem agradável, conversamos bastante e ela contou uma história muito legal do irmão mais velho delas, o tio Max. Tio Max sempre foi uma pessoa bem inteligente e perspicaz. Em 1933 quando o regime nazista se instalou na Alemanha o meu bisavô Miguel viu que a situação não era favorável e resolveu sair de lá. 


Mas não era mais permitido aos judeus o livre trânsito pra fora da Alemanha. Nesse contexto a idéia que ele teve com a minha bisavó Carolina foi sair sem pertence algum, não a família toda pra não chamar atenção. A fronteira escolhida foi a da Bélgica.

O bisavô Miguel foi com o tio Maurício antes do resto da família para testar o processo. Depois teve um grupo formado pela bisavó Carolina, minha avó Fina que tinha entre 9 e 10, a tia Mimi, na época com 14 anos e a tia Ana, então um bebê de colo. Elas com o pretexto de fazer um pique-nique atravessaram a fronteira.

Agora, a história mais interessante é a do tio Max. Ele calhou de cair exatamente no local de controle de passaportes. Ele obviamente não tinha documentação nenhuma com ele e os guardas o perguntaram o que ele estava fazendo. Ele falou que tinha ido visitar a avó na Alemanha e estava voltando. Os guardas o insultaram, falaram que uma criança não podia estar sozinha e o mandaram de volta pra Bélgica, de onde ele não devia ter saído !

No domingo fui cortar o cabelo. Cortar cabelo fora do país é sempre uma aventura. Além da falta de precisão dos termos técnicos pela barreira linguística, ainda há a barreira da moda local. 

A primeira experiência negativa que eu tive foi na Argentina onde a barreira da língua era quase inexistente, mas a cultura local com respeito a cabelo é bem diferente da nossa. O cara conseguiu fazer inúmeros buracos no cabelo que até hoje eu não entendo bem. 

Depois houve uma experiência na Polônia, na qual a mulher que cortou o meu cabelo não falava nada a não ser polonês. Imaginem eu pedindo através de gestos que eu queria meu cabelo curto, cortado com tesoura. Consegui mas foi dramático.

Agora, o que eu vivi aqui foi algo muito diferente. O salão era pequeno, quase sem divisões e os caras ofereciam todos os serviços. Eu lembrei imediatamente de Zohan, aquele filme com o Adam Sandler. O sotaque do cara falando inglês, a maneira de saudar as pessoas quando elas entravam no salão, obviamente interrompendo o corte, enfim, tudo era caricato demais. 

Quando eu tentei dar as indicações o cara com aquele sotaque carregado no erre me disse: "Don't woRRRy my friend, no pRRRoblem". A primeira coisa que ele fez foi passar a máquina com menor corte na lateral, imediatamente eu já sabia que não era boa coisa. 

Depois ao invés de cortar com tesoura o lado, ele media com o pente e passava a máquina. No final o cabelo ficou parecendo o cabelo que os russos aqui usam. Agora além de cara de gringo, tenho cabelo de russo.

Já fiz duas tentativas de fazer um mousse, agora, é bem difícil adaptar receitas aos ingredientes locais quando eles são industrializados. Dessa vez o mousse ficou com cara de mousse, mas muito mole.

Descobri também que se você quiser fazer um plano de saúde com uma empresa brasileira tem de estar no Brasil para fazê-lo, não pode estar em trânsito. Isso me deixou a única possiblidade de fazer com empresas daqui que não estão bem dispostas a fazê-lo, vamos ver como resolvo isso. 

Hoje de manhã no trem vi uma cena bem curiosa. Um camarada de uns 45 ou 50 anos sentou na minha frente. Ele tinha a cara igual ao de Abraham Lincoln, o penteado igual, tinha até barba, a diferença era que ele também usava bigode.

O curioso mesmo foi quando o telefone tocou e soou aquela entrada irada de Purple Haze. Achei fenomenal, e o que veio depois foi sensacional, o cara começou a falar em russo. Ele saiu na estação da universidade, tinha toda a cara de professor mesmo.