Antes do Yom HaShoa eu havia visitado Cesaréia com a Gabi, Flávio, Rafa e Bel. A viagem foi muito legal, até porque começou com um café-da-manhã ! Qualquer viagem que comece com uma refeição é uma ótima viagem. O café-da-manhã foi um absurdo. Comemos 4 tipos diferentes de omeletes, café-com-leite, iogurte, suco, salmão, hummus, tahina, pasta de atum, de azeitona, de abacate, pães, queijos diversos e de diversas consistências e muito mais.
Depois dessa comelança fomos caminhar pelas ruínas da cidade. Cesaréia é uma cidade romana encrustada no Mar Mediterrâneo, no território de Israel. Atualmente ela é um sítio arqueológico bem preservado (apesar de tudo que sofreu durante séculos) e junta história a um ambiente muito legal para se passar o dia com a família.
Tem também espaço para shows e eventos e possui um dos anfiteatros mais bem conservados do mundo. A cidade foi construída por Herodes por volta de 25 b.c.e. para ser a capital romana por essas bandas. As ruínas romanas são impressionantes. Ainda há parte do piso de várias construções. Por exemplo, os banhos eram todos ornamentados com ladrilhos bem pequenos, que lembram as atuais pastilhas, formando belos desenhos. Há também utilização de mármore muito bem polido.
O palácio do governador ficava numa protuberância que levava ao mar. Pude ver também um hipódromo onde ocorriam corridas de biga. Aqui também vemos que todas as paredes eram pintadas. Quando visitamos ruínas temos a impressão de que as pessoas viviam em moradas com o tom do material predominante da construção, mas esses detalhes mostram como eram sofisticadas as moradias daquela época.
| Uma construção conservada em que se nota trabalho de mármore e piso com detalhes. |
| Área onde ocorriam as corridas de biga. |
| Aqui ficava o castelo de Herodes, entrando no mar. Essa área sofreu inundação em tempos mais cercanos. |
| O que fazem Rafa e Bel? |
A cidade era enorme e era o porto mais ativo do oriente médio. Porém a cidade teve outros períodos. A cidade foi bizantina, árabe, cristã (na época dos novos cruzados), otomana e em cada um desses períodos, uma guerra foi realizada para a conquista e a cidade romana cada vez mais foi alterada. É realmente lamentável que muito do que era tenha sido perdido, mas os arqueólogos fazem um trabalho exemplar e hoje podemos ter boa idéia do que foi a cidade outrora.
O visto que era algo que estava me incomodando bastante foi finalmente resolvido. A primeira vez que estive no ministério do interior esperei quatro horas para ser atendido (sim, burocracia pior e mais lenta que no Brasil) e quando finalmente pude ser atendido, tive uma resposta desoladora. Meu visto não podia ser estendido somente com base na minha vontade de estudar hebraico e nos meus comprovantes para isso.
Tive de recorrer a meu amigo, Rabino David, para conseguir uma carta que comprovasse que de fato sou judeu. A primeira versão da carta não foi aceita pois não estava assinada nem havia carimbo algum. O Rabino, com a presteza habitual, me fez nova carta, agora com carimbo, assinatura, assinatura do Rabino chefe do Lubavitch (congregação religiosa que teve origem na cidade russa de Lubavitch).
| Porta fechadura. |
| A visão para a área na qual ficam os restaurantes. |
Munido da carta e da confirmação da autenticidade conseguida no escritório da Agência Judaica fui bem cedo para o Ministério do Interior. Cheguei 7:10 e já havia fila na minha frente, em torno de 7 pessoas. Um homem, romeno, me pediu ajuda para preencher o formulário dele. Fiquei feliz de conseguir ajudá-lo a ler um formulário em hebraico.
Ao entrar, novamente tivemos de aguardar os atendentes nos chamar. Após alguns avanços, algumas pessoas tentavam furar a fila para pedir informação. Um americano controlava todo mundo perguntando qual o número. Achei excelente a atitude dele. Até que uma mulher se recusou a responder o número, obviamente interferi na conversa defendendo o americano. Toda hora que alguém rouba 10 minutos fazendo perguntas atrasa demais o atendimento.
| Ginásio. |
Finalmente, quando fui atendido o camarada me perguntou: Quem disse que você é judeu? Pacientemente respondi, pois bem, tenho uma carta do rabino de minha cidade que diz isso. Mas ele insiste, e quem disse que você é judeu? Eu ainda com paciência respondo: A agência judaica confirmou a autenticidade da carta. E ele novamente: Quem disse que você é judeu? Eu já sem paciência respondi de maneira ríspida: Minha mãe.
E o camarada abre um sorriso enorme falando: Isso ! Sua mãe ! E começa a rir para mim. Que loucura. Depois desse papo o cara me falou que eu precisava de uma foto. Tive de sair do prédio, ir até ao shopping, tirar foto (a máquina havia ainda estragado no meio), voltar, esperar ele terminar o atendimento que ele realizava para só então ser chamado novamente.
Ele pegou todos os documentos e me perguntou quanto tempo de visto eu precisava. Falei que estava voltando em agosto e que precisaria somente de 3 meses. Ele achou pouco e me falou: Mas só? Porque você não pede mais? Eu respondi: Está bem, então pode ser de 1 ano? E ele: Será que é suficiente? Vamos Daniel, aqui você pode NEGOCIAR com o governo! E eu respondi: Ok, quanto tempo você pode me dar? E ele: Agora sim ! Posso te dar até dois anos ! E eu respondi: Ótimo, então quero por dois anos !
E foi assim que consegui meu visto, um visto de trabalho (que não pedi), uma permissão para sair e voltar ao país quantas vezes eu quiser e uma bela história também. Vou lhes confessar, como foi legal ter sentido tamanho acolhimento! O cara queria realmente que eu me sentisse em casa e fez questão de dizer que quer que eu volte para morar em Israel. Isso é senso de unidade.
Ontem a noite, depois desse dia em que peguei o visto, fui para Kfar Saba para ir a festa antecipada de Lag BaOmer. Lag BaOmer é uma festa que na tradução significa 33º dia da contagem do Omer. Vamos por partes. Depois de Pessach (a festa que comemora a saída dos judeus do Egito) são contados 49 dias até a festa de Shavuot (quando a Torah, o antigo testamento - ou a bíblia, foi entregue para os judeus). Ela marca a emancipação da liberdade para seguir a emancipação religiosa.
| Fogueira de Lag BaOmer. |
| Preparando pitta no fogo. A pitta (pão árabe pequeno) é feita na hora em cima de uma chapa de metal com formato de calota. |
Essa contagem que já existia em tempos bíblicos é marcado por dois outros fatos. O primeiro é que no tempo de Rabi Akiva () , seus alunos foram alvos de uma peste divina que matou em torno de 24.000 por não portarem-se de maneira correta uns com os outros (a conduta inapropriada seria a falta de respeito). Porém, no 33º dia da contagem, a praga foi suspensa.
O 33º dia da contagem do Ômer também é o aniversário de morte de Rabi Shimon bar Yochai (que foi aluno do Rabi Akiva) e o escritor do Zohar, o primeiro livro místico judaico. E portanto, inaugurando a Cabalá (misticismo judaico).
A época da contagem do Ômer é uma época de luto principalmente devido à morte dos estudantes de Rabi Akiva, porém, no 33º dia esse luto é suspenso, já que as mortes cessaram e também por conta da morte de Rabi Shimon bar Yochai.
Fogueiras são acesas e as crianças têm o costume de brincar de acro e flecha, em homenagem a outro acontecimento na época dos romanos, onde Bar Kochva se levantou contra os romanos que impediam os judeus de seguir a religião.
Em Kfar Saba vimos enormes fogueiras sendo armadas. Cada família ficou responsável por trazer um tipo de alimento e o banquete novamente estava farto. Comi pitta (pão árabe em menor tamanho) assado em grandes bandejas (na verdade, uma peça metálica que lembra muito a calota de uma esfera - quem não souber o que é calota de esfera lembre de geometria no 2º grau). Além disso havia milho, hummus, nutela, salada de todos os tipos, doces, cachorro-quente e outras guloseimas mais.
É muito legal ver todas as festas que estudei no colégio sendo vividas atualmente. É algo que marca muito porque no Brasil não tive a oportunidade de viver as festas na rua, somente em sinagogas e comemorações fechadas. Mas aqui é diferente, todos vivem isso nas ruas.
Bom, finalmente consigo escrever sobre algo que venho querendo escrever há muito tempo. Infelizmente há pouco tempo atrás faleceu meu último avô vivo. Foi para mim uma data marcante não somente pelo fato em si, mas porque simbolicamente foi o último elo que me ligava aos avós.
É curioso como para mim os avós me remetem à infância. Acho que todos ainda somos crianças enquanto temos nossos avós. Eu tive uma sorte enorme de ter conhecido meus 4 avós e de ter conversado muito com cada um deles.
Eu adorava escutar as histórias de outros tempos. De como era o Rio, de como eram os pais deles, do que eles conversavam com seus pais. A vivência em outros tempos, a conexão com um período diferente. Devo aos meus avós muito da imagem que tenho, por exemplo, do Rio de Janeiro. Eu sinto saudades de um Rio que não existe mais devido em grande parte a eles e às suas experiências.
Também devo a eles o senso aguçado de família que eu tenho. Os meus avós eram centros agregadores, sempre tinham aquele desejo de ver a família unida. Em tempos modernos esse é um valor que tende a se perder, e graças aos meus avós sinto que eu tenho essa vontade de congregar dentro de mim.
Tive em cada avô e em cada avó grandes amigos. Conversava com eles sobre meus planos, sobre o futuro, sobre a vida deles e portanto aprendia sobre a minha. Foram importante durante cada fase de minha vida e sei que aproveitei bastante a convivência com eles. A eles, ficam meus sentimentos de felicidade e gratidão por ter convivido durante tantos anos com todos.
Beijos avós!
Beijos avós!
