quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cesaréia, o visto, Lag BaOmer e o papel da família em nossas vidas

Antes do Yom HaShoa eu havia visitado Cesaréia com a Gabi, Flávio, Rafa e Bel. A viagem foi muito legal, até porque começou com um café-da-manhã ! Qualquer viagem que comece com uma refeição é uma ótima viagem. O café-da-manhã foi um absurdo. Comemos 4 tipos diferentes de omeletes, café-com-leite, iogurte, suco, salmão, hummus, tahina, pasta de atum, de azeitona, de abacate, pães, queijos diversos e de diversas consistências e muito mais.


Restos do café-da-manhã em Cesaréia
Caixote. Literalmente e no lugar certo.
Depois dessa comelança fomos caminhar pelas ruínas da cidade. Cesaréia é uma cidade romana encrustada no Mar Mediterrâneo, no território de Israel. Atualmente ela é um sítio arqueológico bem preservado (apesar de tudo que sofreu durante séculos) e junta história a um ambiente muito legal para se passar o dia com a família. 


Banho romano.
Tem também espaço para shows e eventos e possui um dos anfiteatros mais bem conservados do mundo. A cidade foi construída por Herodes por volta de 25 b.c.e. para ser a capital romana por essas bandas. As ruínas romanas são impressionantes. Ainda há parte do piso de várias construções. Por exemplo, os banhos eram todos ornamentados com ladrilhos bem pequenos, que lembram as atuais pastilhas, formando belos desenhos. Há também utilização de mármore muito bem polido.


Detalhe do piso com mármore.

Detalhe do piso com pastilhas.
O palácio do governador ficava numa protuberância que levava ao mar. Pude ver também um hipódromo onde ocorriam corridas de biga. Aqui também vemos que todas as paredes eram pintadas. Quando visitamos ruínas temos a impressão de que as pessoas viviam em moradas com o tom do material predominante da construção, mas esses detalhes mostram como eram sofisticadas as moradias daquela época.


Uma construção conservada em que se nota trabalho de mármore e piso com detalhes.

Área onde ocorriam as corridas de biga.
Aqui ficava o castelo de Herodes, entrando no mar. Essa área sofreu inundação em tempos mais cercanos.

O que fazem Rafa e Bel?
A cidade era enorme e era o porto mais ativo do oriente médio. Porém a cidade teve outros períodos. A cidade foi bizantina, árabe, cristã (na época dos novos cruzados), otomana e em cada um desses períodos, uma guerra foi realizada para a conquista e a cidade romana cada vez mais foi alterada. É realmente lamentável que muito do que era tenha sido perdido, mas os arqueólogos fazem um trabalho exemplar e hoje podemos ter boa idéia do que foi a cidade outrora.


Vista da penísnula onde ficava o palácio de Herodes. 
O visto que era algo que estava me incomodando bastante foi finalmente resolvido. A primeira vez que estive no ministério do interior esperei quatro horas para ser atendido (sim, burocracia pior e mais lenta que no Brasil) e quando finalmente pude ser atendido, tive uma resposta desoladora. Meu visto não podia ser estendido somente com base na minha vontade de estudar hebraico e nos meus comprovantes para isso. 



Anfiteatro.

Antigamente ele era fechado, mas aberto o visual é bem interessante.
Tive de recorrer a meu amigo, Rabino David, para conseguir uma carta que comprovasse que de fato sou judeu. A primeira versão da carta não foi aceita pois não estava assinada nem havia carimbo algum. O Rabino, com a presteza habitual, me fez nova carta, agora com carimbo, assinatura, assinatura do Rabino chefe do Lubavitch (congregação religiosa que teve origem na cidade russa de Lubavitch).


Porta fechadura.
A visão para a área na qual ficam os restaurantes.
Munido da carta e da confirmação da autenticidade conseguida no escritório da Agência Judaica fui bem cedo para o Ministério do Interior. Cheguei 7:10 e já havia fila na minha frente, em torno de 7 pessoas. Um homem, romeno, me pediu ajuda para preencher o formulário dele. Fiquei feliz de conseguir ajudá-lo a ler um formulário em hebraico.

Ao entrar, novamente tivemos de aguardar os atendentes nos chamar. Após alguns avanços, algumas pessoas tentavam furar a fila para pedir informação. Um americano controlava todo mundo perguntando qual o número. Achei excelente a atitude dele. Até que uma mulher se recusou a responder o número, obviamente interferi na conversa defendendo o americano. Toda hora que alguém rouba 10 minutos fazendo perguntas atrasa demais o atendimento.


Ginásio.
Finalmente, quando fui atendido o camarada me perguntou: Quem disse que você é judeu? Pacientemente respondi, pois bem, tenho uma carta do rabino de minha cidade que diz isso. Mas ele insiste, e quem disse que você é judeu? Eu ainda com paciência respondo: A agência judaica confirmou a autenticidade da carta. E ele novamente: Quem disse que você é judeu? Eu já sem paciência respondi de maneira ríspida: Minha mãe. 

E o camarada abre um sorriso enorme falando: Isso ! Sua mãe ! E começa a rir para mim. Que loucura. Depois desse papo o cara me falou que eu precisava de uma foto. Tive de sair do prédio, ir até ao shopping, tirar foto (a máquina havia ainda estragado no meio), voltar, esperar ele terminar o atendimento que ele realizava para só então ser chamado novamente.

Ele pegou todos os documentos e me perguntou quanto tempo de visto eu precisava. Falei que estava voltando em agosto e que precisaria somente de 3 meses. Ele achou pouco e me falou: Mas só? Porque você não pede mais? Eu respondi: Está bem, então pode ser de 1 ano? E ele: Será que é suficiente? Vamos Daniel, aqui você pode NEGOCIAR com o governo! E eu respondi: Ok, quanto tempo você pode me dar? E ele: Agora sim ! Posso te dar até dois anos ! E eu respondi: Ótimo, então quero por dois anos ! 


E foi assim que consegui meu visto, um visto de trabalho (que não pedi), uma permissão para sair e voltar ao país quantas vezes eu quiser e uma bela história também. Vou lhes confessar, como foi legal ter sentido tamanho acolhimento! O cara queria realmente que eu me sentisse em casa e fez questão de dizer que quer que eu volte para morar em Israel. Isso é senso de unidade.

Ontem a noite, depois desse dia em que peguei o visto, fui para Kfar Saba para ir a festa antecipada de Lag BaOmer. Lag BaOmer é uma festa que na tradução significa 33º dia da contagem do Omer. Vamos por partes. Depois de Pessach (a festa que comemora a saída dos judeus do Egito) são contados 49 dias até a festa de Shavuot (quando a Torah, o antigo testamento - ou a bíblia, foi entregue para os judeus). Ela marca a emancipação da liberdade para seguir a emancipação religiosa. 


Fogueira de Lag BaOmer.
Preparando pitta no fogo. A pitta (pão árabe pequeno) é feita na hora em cima de uma chapa de metal com formato de calota.
Essa contagem que já existia em tempos bíblicos é marcado por dois outros fatos. O primeiro é que no tempo de Rabi Akiva () , seus alunos foram alvos de uma peste divina que matou em torno de 24.000 por não portarem-se de maneira correta uns com os outros (a conduta inapropriada seria a falta de respeito). Porém, no 33º dia da contagem, a praga foi suspensa. 

O 33º dia da contagem do Ômer também é o aniversário de morte de Rabi Shimon bar Yochai (que foi aluno do Rabi Akiva) e o escritor do Zohar, o primeiro livro místico judaico. E portanto, inaugurando a Cabalá (misticismo judaico).

A época da contagem do Ômer é uma época de luto principalmente devido à morte dos estudantes de Rabi Akiva, porém, no 33º dia esse luto é suspenso, já que as mortes cessaram e também por conta da morte de Rabi Shimon bar Yochai. 

Fogueiras são acesas e as crianças têm o costume de brincar de acro e flecha, em homenagem a outro acontecimento na época dos romanos, onde Bar Kochva se levantou contra os romanos que impediam os judeus de seguir a religião. 

Em Kfar Saba vimos enormes fogueiras sendo armadas. Cada família ficou responsável por trazer um tipo de alimento e o banquete novamente estava farto. Comi pitta (pão árabe em menor tamanho) assado em grandes bandejas (na verdade, uma peça metálica que lembra muito a calota de uma esfera - quem não souber o que é calota de esfera lembre de geometria no 2º grau). Além disso havia milho, hummus, nutela, salada de todos os tipos, doces, cachorro-quente e outras guloseimas mais.

É muito legal ver todas as festas que estudei no colégio sendo vividas atualmente. É algo que marca muito porque no Brasil não tive a oportunidade de viver as festas na rua, somente em sinagogas e comemorações fechadas. Mas aqui é diferente, todos vivem isso nas ruas.

Bom, finalmente consigo escrever sobre algo que venho querendo escrever há muito tempo. Infelizmente há pouco tempo atrás faleceu meu último avô vivo. Foi para mim uma data marcante não somente pelo fato em si, mas porque simbolicamente foi o último elo que me ligava aos avós.

É curioso como para mim os avós me remetem à infância. Acho que todos ainda somos crianças enquanto temos nossos avós. Eu tive uma sorte enorme de ter conhecido meus 4 avós e de ter conversado muito com cada um deles. 

Eu adorava escutar as histórias de outros tempos. De como era o Rio, de como eram os pais deles, do que eles conversavam com seus pais. A vivência em outros tempos, a conexão com um período diferente. Devo aos meus avós muito da imagem que tenho, por exemplo, do Rio de Janeiro. Eu sinto saudades de um Rio que não existe mais devido em grande parte a eles e às suas experiências. 

Também devo a eles o senso aguçado de família que eu tenho. Os meus avós eram centros agregadores, sempre tinham aquele desejo de ver a família unida. Em tempos modernos esse é um valor que tende a se perder, e graças aos meus avós sinto que eu tenho essa vontade de congregar dentro de mim.

Tive em cada avô e em cada avó grandes amigos. Conversava com eles sobre meus planos, sobre o futuro, sobre a vida deles e portanto aprendia sobre a minha. Foram importante durante cada fase de minha vida e sei que aproveitei bastante a convivência com eles. A eles, ficam meus sentimentos de felicidade e gratidão por ter convivido durante tantos anos com todos.

Beijos avós!

domingo, 15 de maio de 2011

Independência, democracia moderna e as redes sociais, coexistência e outros temas correlatos

Esse post não ficou esquecido mas armazenado, vou já soltá-lo porque há muita coisa acontecendo e quero poder escrever sobre os novos fatos.

Depois de Pessach as aulas voltaram ao Ulpan. É muito ruim ficar um tempo sem estudar e depois voltar. Ter de pegar o ritmo novamente não é nada fácil, e acho que até agora não peguei o ritmo que eu estava. Mas já na volta falei com a professora sobre a minha preocupação de terminar a turma e ter de estudar apenas 3 vezes por semana.

Ela me sugeriu verificar uma turma de Olim Chadashim (novos imigrantes). Fui a primeira aula no domingo (que é a segunda daqui) e gostei bastante, a turma está agora começando a estudar o futuro e é exatamente aonde eu estaria se fosse continuar com a outra turma. 

Além de estudar um dia a mais por semana, estudo uma hora a mais por dia, o que totalizam nove horas a mais por semana. Excelente para as minhas pretensões de estudar hebraico a fundo. Além disso o Léo me passou o link para o canal de tevê na internet, além de tudo poderei escutar hebraico na tevê com legenda. 

Espero apenas voltar ao ritmo de estudar toda tarde. Mas com tantos acontecimentos concomitantes, acho que ainda tarde mais uma semana até ajustar o horário.

No sábado aqui sempre rola um samba. Aqueles que bem me conhecem sabe que este não é, digamos, meu gênero predileto de música. A sorte é que nos dois dias em que estive presente tocaram chorinho que é bem mais palatável que o samba em si. O chorinho tem diversos solos de diversos instrumentos que deixa a coisa bem mais interessante. A grande questão é que não é meu estilo predileto e aí a música passa a não ser o ponto central do encontro, mas sim ficar de papo com os amigos. 

E mais, havia cerveja dessa vez. Ou melhor, dessa vez eu podia beber cerveja já que Pessach já havia terminado. Após escutar tudo de samba que um cidadão pode aguentar numa tarde e tomar apenas 4 chopps (sim, 4 chopps apenas, de meio litro cada) de trigo, achamos prudente forrar o estômago para evitar qualquer ingresia.

Ali ao lado do samba, que rola em Iafo, tem o famoso e já comentado no blog, Abulafia. O Abulafia é um restaurante de comida árabe que tem um lado onde são vendidos sanduíches ordinários (mas nem tanto) e massas (burekas, folheados e mais) e outro lado onde há um restaurante e a venda de Falafel e Schawarma. 

A Schawarma pode ser considerado o rei (ou rainha) dos podrões. Quem morou no Rio e se acostumou a terminar a noite comendo aquele cachorro-quente com salsicha que você reza para ser de frango (ou ao menos de animais que não costumam estar em nossas casas, como por exemplo o gato) se deleitaria ao terminar a noite comendo um Schawarma de carneiro no espírito de coexistência.

Para começar o sanduíche é muito bem servido, é grande e ainda é permitido que você pegue alguns acompanhamentos como pepino em conserva, cebola e outras coisas. O Maurício logo me mostrou que eu deveria provar a Laffa (pão árabe tamanho pizza grande) do dia anterior frita e com o tempero zátar. É simplesmente sensacional, mas até aí nenhum mistério né, fritura ! 

Depois que devoramos o sanduíche tivemos a maravilhosa idéia de comer uns docinhos que por ali haviam. Trata-se da bakláuá (saber escrever isso em hebraico será um desafio), feito com nozes e uma massa fina, lembrando um strudel.

Normalmente eles servem esse doce com café na hora que você pede a conta. Não sabemos até agora se estava incluído nos nossos sanduíches, mas como os primos não reclamaram, comemos cada um, uma média de 5 docinhos.

O Marcelo ainda teve tempo de falar que éramos do Brasil e dar um abraço em cada primo, isso é que é coexistência.

Neste mesmo dia, porém mais cedo, eu havia ido a praia de Yaffo com o Maurício. O dia estava agradável, o vento esfriando um pouco o clima mas deixando a gente sem preocupação com calor. Ficamos de papo por um bom tempo. 

Só agora consegui definir o que mais me incomoda em Israel. Demorei bastante tempo para compreender porque algumas coisas me irritavam e finalmente cheguei à conclusão. Há uma máxima no judaísmo que pode defini-lo sem a necessidade de nenhum outro estudo profundo. Essa máxima é Veahavta Lereacha Kamocha, ou Ame ao próximo como a ti mesmo. 

Essa frase pode ser usada em qualquer situação para que você saiba exatamente qual o limite entre o teu direito e o direito do outro. O israelense se preocupa tanto em ajudar às pessoas com necessidades que não faz sentido o que você vê no cotidiano. 

O país possui o maior índice de voluntários por habitante do mundo, sempre envia missões de ajuda humanitária em épocas de crise, como no tsunami da Tailândia, no terremoto do Haiti ou dessa crise nuclear no Japão, e no entanto, quando trata-se de não avançar um sinal vermelho, de não parar em cima da faixa, de não travar ninguém num estacionamento eles não estão nem aí. Isso até agora é a coisa que mais me chamou a atenção.

Depois de falar disso tocamos no assunto da paz mundial e da democracia. Engraçado que o Maurício pensou de uma maneira bem prática para melhorar a democracia, passando por uma idéia que eu já tinha, mas indo além.

Hoje li em O Globo sobre o problema que tem o legislativo em estudar todos os projetos de lei e votá-las. O jornal faz alarde para o tempo que demoraria terminar de examinar e votar todas, 100 anos. Obviamente esse modelo é antiquado.

É antiquado pois baseia-se em representantes em uma época em que nem toda a população podia ser ouvida por uma impossibilidade de realizar enquetes sobre todos os assuntos. Porém, se a gente pensar, já há como pensarmos em votações através da internet.

Já há locais em que a internet alcança boa parte da população e isso possibilitaria que todos pudessem expressar suas opiniões sobre diversos assuntos. Obviamente isso só seria possível se o número de assuntos não fosse absurdamente grande. Ou se houvesse uma divisão entre assuntos para serem decididos pela população e assuntos que deveriam ser decididos pelos representantes.

O Maurício sugeriu uma espécie de rede social na qual estes temas fossem debatidos e postos à votação. Ele sugeriu inclusive uma espécie de procuração online, onde um cara mais interessado em política pudesse votar por ele e por outros. Isso na verdade é uma espécie de eleição de representantes de maneira muito mais eficiente por ser muito mais íntima.

Bom, esse tema que havia escrito antes cabe muito bem no que está acontecendo hoje. Depois do dia da lembrança pelos soldados caídos em batalha aconteceu o Dia da Independência segundo o calendário judaico. As comemorações foram incríveis. O sentimento de patriotismo aqui é muito forte e fiquei bem feliz com isso.

Gente pelas ruas, a noite inteira, bandeira para todos os lados, muita gente dançando feliz da vida. Inclusive muitos religiosos estiveram pelas ruas. Tem um grupo de religiosos aqui chamados de Nachman, que tem uma visão bem legal do judaísmo.

Eles dizem que o judaísmo é alegria e assim eles vivem. Em todo lugar que eles estão, eles estão com música altíssima ! Eles andam em vans todas caracterizadas, com caixas de som em cima delas, sempre tocando o mesmo refrão mas em diversos ritmos diferentes. E no Dia da Independência não foi diferente. Eles estavam por todos os lados.

No dia seguinte (que ainda era parte do festejo) fizemos um churrasco. Como foi bom comer carne preparada da maneira correta, com farofa e coração de galinha. No final ainda teve brigadeiro de leite moça para quem quisesse.

Agora, o calendário do mundo é gregoriano e portanto o Dia da Independência de Israel é 14/05. Os palestinos celebram o dia chamado Nakba, ou catástrofe em árabe. O que representou a liberdade para os judeus significou a falta de auto-determinação deles. Aqui é importante lembrar que no dia seguinte à declaração de independência de Israel diversos países atacaram Israel com um exército conjunto: Síria, Líbano, Egito, Jordânia (na época ainda chamada de Transjordânia), Arábia Saudita, Iraque e Yemen.

Muito se fala sobre a expulsão de diversos árabes de seus lares após a guerra, porém os judeus expulsos dos países árabes nunca são lembrados. Os números de judeus que foram expulsos supera o de palestinos (não por grande margem, a Wikipedia diz que judeus expulsos foram entre 800.000 e 1.000.000 e que palestinos que viviam fora de Israel em 1949 eram 711.000), mas essa questão nunca é mencionada.

Esse dia costuma ser marcado por protestos. No sábado houve protestos em Yaffo, mas hoje as coisas esquentaram. Centenas de palestinos tentaram invadir a fronteira pela Síria e segundo li o exército abriu fogo para detê-los. A fronteira com o Líbano também teve incidente parecido, porém aí o exército libanês abriu fogo e matou alguns palestinos.

A Síria que ano passado bloqueou o acesso dos palestinos à fronteira, esse ano liberou para tentar desviar a atenção do mundo aos problemas internos do país. Jerusalém também viu muitos protestantes depredando patrimônio público e ondas de violência pela cidade. A Jordânia por outro lado conseguiu bloquear os protestantes que não invadiram território israelense.

Além dessas questões, todo esse levante no mundo árabe ainda está muito indefinido. Espera que eles decidam por um caminho pacífico e democrático, mas não há garantias e portanto essa região que já é bastante delicada vive dias de expectativa.

Para variar me alonguei no post e não falei de tudo que queria. Ainda há mais o que falar sobre a minha visita à Cesaréia e outros assuntos. 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Yom HaZikaron

Desde ontem a noite até hoje é o Dia da Lembrança pelos soldados caídos em batalhas por Israel. A data ocorre praticamente uma semana após a Lembrança pelos que tombaram no Holocausto (existe alguma diferença de acordo com o dia em que cai a data, como esse ano esse dia cairia na saída do shabat foi adiado em um dia e por conseqüência, o dia da Independência também).

Há uma forte correlação entre as três datas e o Pessach que foi pouco antes. Em Pessach comemoramos a liberdade de ter saído do Egito. Um tempo depois ocorre um dia tristíssimo que lembra as loucuras que os homens podem cometer com relação ao preconceito. No dia de Lembrança do Holocausto, todos se entristecem perante um dos atos mais vergonhosos que a humanidade foi capaz de cometer. 

E logo em seguida, uma semana depois, ocorre o Dia das Lembranças pelos filhos de Israel que caíram em batalha por Israel, novamente remetendo à liberdade. A história desse país não é simples, nem um pouco. Devemos lembrar que antes da Segunda Guerra já havia combates em Israel contra os ingleses. Durante a Guerra o combate cessou já que os ingleses estavam guerreando contra os alemães.

Porém, ao fim da guerra houve a retomada das batalhas e mais mortes de judeus que estavam combatendo pelo direito de ter um país no qual não sofressem mais por sua escolha religiosa. O que parece é que a Segunda Guerra foi apenas o marco mais significativo de toda a história do povo, que sofreu em praticamente em todos os países nos quais esteve.

A impressão que tenho é que fora de Israel o Holocausto é a data mais triste, porque de determinada maneira, é uma data triste para a humanidade, já que foi uma experiência coletiva de algo deplorável. Porém, em Israel eu senti que a data de Lembrança pelos que tombaram em batalhas é mais forte, não é mais íntimo, mas é mais recente.

Já na Guerra de Independência ocorreram mortes e até hoje há gente que dá sua vida pelo país. Imaginem que num país de 7 milhões de pessoas, em que 5 são judeus, e portanto obrigados a servir ao exército, cada pessoa conhece alguém que em algum momento acabou morto.

A cerimônia foi incrivelmente triste. Tal como na semana anterior, os depoimentos são as coisas que mais marcam. E faz parte do país honrar a memória daqueles que perderam suas vidas em detrimento da defesa e segurança do país, um lugar onde estamos mais seguros do que em terras estrangeiras.

Depois de assistir a essa cerimônia fico convencido de que o que mais querem os israelenses é paz. É notável que eles sentem enormemente a perda de seus parentes. Eu fui à Praça Rabin assistir à cerimônia ao vivo. Revezavam-se músicas notadamente tristes com filmes em que as famílias davam seu depoimento.

Como já ouvi aqui mais de uma vez, cada pessoa é um mundo completo, no sentido que cada pessoa faz parte de um microcosmo chamado família. Onde há sonhos próprios, momentos vividos em conjunto e vidas construídas com outras pessoas.

Várias histórias eram tristíssimas, como de uma mãe que perdeu seus dois filhos varões em guerras, restando apenas sua menina. Ou de um druso que perdeu seu filho, que fora o primeiro druso a chegar à determinada posição no exército. 

Durante a cerimônia, o primeiro filme que passou estava sem imagem, somente com som. Ao término da cerimônia ouvimos e cantamos o hino de Israel, e logo depois a organização pediu mais cinco minutos porque o vídeo seria repassado já que a família estava ali presente. Os israelenses são sempre apressados e impacientes, porém, mais do que 95% das pessoas ali presentes atenderam ao pedido de ficar um pouco mais. 

Achei isso a coisa mais impressionante da noite porque significou o quanto essa data importante é isso para o israelense, mais importante que características tão marcantes nele como a sua paciência limitadíssima.

Uma outra coisa que chama a atenção é que Israel guarda uma contagem de todos os soldados caídos em batalhas desde 1860, bem como o número de mortos em atentados terroristas a partir do estabelecimento do Estado. São 22.867 mortos em batalhas, e 2.443 mortos em batalhas
(fonte: http://www.mfa.gov.il/MFA/MFAArchive/2011/Israel_63_years_independence-May_2011.htm)

Ontem a noite às 20:00 houve uma sirene que tocou e todos se levantaram por um minuto em silêncio. Hoje ocorreu o mesmo às 11:00, dessa vez por dois minutos. Eu fui para a rua ver e a sensação é de se estar em um filme no qual o tempo para. É exatamente essa a sensação. Quase todos saem de seus carros, se levantam, e o silêncio só é quebrado pelo som das sirenes.

Logo depois desse dia tão difícil, Israel comemora o dia da Independência. É uma gangorra de sentimentos que faz qualquer um se sentir nauseado. Eu sinceramente não sei como conseguirei passar de uma tristeza tão profunda como o dia de hoje para uma alegria como o dia que se inicía já hoje a noite.

Talvez eu não saiba como fazê-lo, mas sei que o farei, como todos os judeus em todos os tempos. Sofremos sempre, mas sempre que nos dão a oportunidade ficamos felizes.

PS: Há muitos outros assuntos que quero abordar aqui, mas estas duas semanas senti ser mais importante passar minhas percepções sobre o coletivo israelense-judaico do que manter o foco na minha viagem. Espero em breve retornar aos meus assuntos incluindo algumas tristezas pessoais.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Yom haZikaron laShoá velaGvurá

Minha idéia era contar a semana passada num único post, mas não achei boa a idéia e resolvi falar apenas deste dia tão importante. 

Como o calendário judaico é lunar-solar os dias começam no entardecer do "dia anterior", portanto, hoje que é 2 de maio começou ontem no dia 1 de maio ao escurecer. Hoje é o Dia da Lembrança do Holocausto e do Heroísmo. 

Obviamente eu já havia passado vários dias como este no Brasil, mas tudo relativo à religião e à cultura judaica aqui em Israel é muito mais forte, marcante e tocante. Ontem a noite, como é feito há algum tempo (não sei dizer quanto), há a abertura deste dia tão triste com uma cerimônia no Museu do Holocausto em Jerusalém (Yad Vashem). 

Estiveram presentes dentre outros destaque o primeiro ministro Benjamin Netanyahu e o presidente de Israel, Shimon Peres. Eu fico impressionado com o Peres, com 87 anos de idade ainda tenha tanto envolvimento com a política em Israel e ainda seja lúcido e tenha posições atuais.

A cerimônia obviamente foi tristíssima. A parte que para mim foi a mais dura foi aquela onde sobreviventes contam suas histórias. Eu acho importantíssimo que todos estes registros venham sendo feitos. Há uma corrente ainda forte de pessoas que negam o ocorrido. Como diz o Maurício, mudar a história e transformar uma versão fantasiosa em verdade é o grande inimigo, o grande mal.

As pessoas costumam falar em 6 milhões de pessoas e achar uma cifra alta mas apenas uma cifra. Eu tenho duas observações sobre o número. 

Primeiro é que cada um desta contagem eram pessoas com vidas, com família, com futuro, com sonhos e idéias. Elas podiam ser eu em qualquer etapa da minha vida. Podiam ser o Daniel ainda no colo da mãe, podia ser o Daniel com 4 anos de idade sem saber escrever, podia ser o Daniel com 7 anos escrevendo e jogando bola, podiam ser o Daniel com 13 anos fazendo o Bar-Mitzvá, podiam ser o Daniel com 17 anos fazendo o vestibular, ou ainda com 22 anos recém saído da universidade, ou com 35 casado com filhos, ou com 60 já avô e ainda, quem sabe, com 90 bisavô.

Não importava a idade, a profissão, a capacidade intelectual ou a incapacidade de relacionamento. Não importava se loiro ou careca, se usasse óculos ou se fosse atleta. Ser judeu era motivo suficiente para que fosse classificado como imprestável e que isso por si só era motivo para a sentença de morte. Esse preconceito, na sua essência da palavra, uma conceito prévio, que apenas media o direito à vida de alguém por seu credo é simplesmente inaceitável.

E cada uma dessas pessoas tinha um nome, muitos dos quais até hoje é impossível de se saber dado que todas a família, amigos próximos e quaisquer conexões com o mundo foram apagadas através da morte.

A segunda observação que faço é comparar o número de 6 milhões de judeus mortos com o número atual de judeus vivendo no mundo. Segundo a Wikipedia, atualmente vivem no mundo 13 milhões de judeus. Ou seja, se o número de judeus não tivesse se alterado no mundo, a quantidade de judeus mortas representa aproximadamente a metade da nossa população atual, ou 1/3 da possível população total se somada com o número de mortos. 

Outra fonte que consultei diz que o total de judeus em 1939 era de 17 milhões. Após a guerra sobraram apenas 11 milhões. Imaginem o que é o aniquilamento de aproximadamente 33% de uma população, apenas baseada no ódio e na intolerância. Isso é simplesmente algo abominável.

Devemos ainda lembrar que quando eclodiu a guerra não havia um Estado Judeu e que muitos países fecharam suas fronteiras para receber refugiados de guerra, entre eles, os judeus. Estar aqui em Israel num dia como este de fato marca muito e deixa você muito mais consciente do seu papel no mundo.

Hoje tivemos uma cerimônia no Ulpan para a lembrança. E assim como em todo o país, às 10 horas da manhã fizemos 1 minuto de silêncio de pé no auditório. A sirene é tocada no rádio e todo o sistema de som do país toca em uníssono. Tudo pára. Os carros, ônibus, os trabalhadores não importam o que façam, as aulas. Tudo fica estático. Grande parte dos que estão aqui vêm de famílias que sofreram no holocausto.

Outro fato curioso é que a televisão exibe durante todo o dia (desde ontem a noite) uma programação dedicada a temas relacionados ao tema em questão. E as rádios só tocam músicas tristes e também ligadas ao tema. O país se veste de luto, mas de branco pedindo por paz.