domingo, 5 de junho de 2011

Comida persa e um bom papo

Se você está em outro país e tem vontade de mergulhar na cultura local, há muito o que aprender. E não somente temas profundos como política e religião. Há temas mais amenos e não menos interessantes. Estes temas vão desde a escolha de nomes das pessoas no local a como traduzem os nomes de filmes. Passa inevitavelmente por cultura e religião e as diferentes maneiras de enxergar o mundo através dela.

No final de semana retrasado fui almoçar na parte sul de Tel Aviv, bem perto de um mercado de temperos na Rua Levinsky. Essa rua é tomada por lojas que vendem temperos, frutas secas e artigos mais exóticos, no estilo Casa Pedro. A extensão não é quilométrica, porém há grande variedade de artigos e de lojas. 

Por acaso não estava com minha câmera neste dia, mas gostei tanto que pretendo voltar para repetir a refeição que tive na semana em questão. Fui com a Keren comer em um restaurante presa. 

Pra quem não sabe, conheci a Keren por intermédio da Gabi, mulher do Flávio. A Keren participava de uma organização chamada Israel at Heart. A idéia da organização era enviar ex-soldados israelenses pelo mundo, para os mais diversos países, dando predileção à conversas em universidades para abrir diálogo e quebrar preconceitos pelo mundo. 

Depois deste trabalho a Keren ainda morou dois anos no Rio, tendo trabalhado numa outra organização judaica, o Hillel, da qual eu também participei.

Bom, voltando ao restaurante persa, um amigo dela nos havia indicado não somente o restaurante como também os pratos que deveríamos pedir. O camarada que nos atendeu tinha sotaque forte, indicando que não era de Israel (suponho eu que do Irã, dado o tipo de restaurante), e era bem simpático.

Pedimos dois pratos, um era um ensopado de carne de carneiro no molho de limão. Não era exatamente molho, mas sim um caldo que vinha num prato fundo, com limões que haviam sido utilizados no preparo 
junto. 

O outro prato era um também de carne com base de tomate, novamente o molho era no mesmo esquema. Para acompanhar o camarada nos recomendou arroz. Ficamos na dúvida e pedimos arroz branco, como ele 
percebeu que não conhecíamos nada, nos trouxe outros dois tipos de arroz.

Um preparado com cenoura, nozes diversas dentre outros ingredientes e tinha a cor tendendo para o bege e um outro de cor verde, com diversas ervas. Ambos saborosíssimos. 

A comida era tanta que tive de fazer força para conseguir comer tudo. O tempero era bem marcado, mas 
não forte. E as diversas combinações de arroz deixavam os pratos ainda mais gostosos.

Durante nosso almoço surgiu um assunto interessantíssimo: nomes. Eu perguntei à Keren como as pessoas conseguiam utilizar tantos nomes para meninos e meninas. E ela me explicou a origem de muitos nomes 
israelenses atuais. 

Muitos deles são ligados à temas da natureza como pássaros, árvores e outros assuntos variantes. Essa cultura começou com os novos imigrantes que queriam exprimir seu amor à terra prometida e a tudo que nela havia. Achei interessante e fiz uma comparação com os cristãos novos que em geral recebiam nomes de árvores quando de sua conversão. 

Outro assunto que não podia faltar foi sobre como as pessoas em Israel agem. A Keren havia conversado com amigos delas, e que quando indagados sobre andar de moto nas calçadas concordaram que de fato aquela atitude era absurda. Espero que pelo menos estes parem de fazer isso. 

Apesar de uma afinidade religiosa incrível, a cultura ainda é uma incógnita na minha cabeça. Fico tentando entender o que pode levar um país a não respeitar algumas regras básica e respeitar outras não tão simples. Ao mesmo tempo em que são capazes de andar com motos nas calçadas, raramente vejo alguém avançando sinal. Mas muito de vez em quando uma moto faz isso. Carro nunca vi, nem mesmo de madrugada. Eu atravesso na faixa sem olhar para os lados.

A Keren comentou que quando o país foi formado vieram muitos judeus da europa, muitos vieram de vilas pobres da europa oriental e além disso houve um afluxo grande de judeus oriundos de países árabes. 

Estes são conhecidos aqui como mizrahis (orientais) e há claramente uma cultura própria que atualmente é atribuída a esse grupo, apesar de eu achar que vai mais do comportamento atual do que de fato as origens das pessoas.

Ben Gurion inclusive foi fortemente criticado quando resolveu intrometer-se neste assunto tendo feito algumas declarações que foram consideradas ofensivas. Obviamente não me sinto confortável das pessoas não fazerem fila, berrarem umas com as outras por qualquer motivo banal e pelo fato de não respeitarem leis básicas, como não fumar em locais fechados. 

Outro ponto que para mim é dificílimo de entender dentro da cultura israelense é como um povo pode ser tão solidário em situações de desgraça, como por exemplo, se voluntariando para prestar socorro em eventos de catástrofe como no Tsunami na Tailândia, o Terremoto no Haiti e o Vazamento nuclear no Japão, mas serem egoístas ao ponto de furarem e não respeitarem fila, de estacionar em mais de uma vaga ou não dar passagem no trânsito. São dois valores tão próximos que eu não consigo entender como não são feitos simultaneamente.

Mas se ao mesmo tempo eu me espanto com isso, a Keren me contou uma situação que de fato temos como 
normal e é de fato um absurdo. Ela conta que quando foi ao Brasil pelo programa que eu já comentei, ela ficou hospedada na casa de uma pessoa na Zona Sul. Era um prédio novo, mas que mesmo tendo sido construído recentemente tinha dependência para empregadas, com um quarto minúsculo. Isso de fato é um completo absurdo. Parem pra pensar como é um resquício dos tempos coloniais que perdura até hoje.

A submissão aí é marcada por um quarto que é destinado aos serviçais, de tamanho minúsculo onde muitas vezes os empregados dormem e passam a semana. É um ranço absurdo que perdura até hoje e consideramos este um fato normal. 

Comentei com ela o livro que li sobre o Brasil: Deu no NY Times. Ela concordou muito com o início do livro onde o autor fala que a primeira impressão que se tem do Brasil é de se estar chegando ao paraíso, mas uma vez que o turista passa a ser morador, vê que na verdade ele está preso numa armadilha clientelista onde em todos os lugares há uma relação de favores permeando o trato social.

Voltando ao dia-a-dia, tenho feito Yoga há 4 ou 5 semanas. Eu pensava que o exercício era apenas ficar sentado esperando o tempo passar tentando não pensar em nada (IMPOSSÍVEL), porém, o que encontrei foi uma série de exercícios que exigem ao mesmo tempo flexibilidade e força. 

Imaginem vocês que flexibilidade está longe de ser alguma habilidade minha, de fato, acho que eu nem devo falar que sou flexível, eu posso falar que consigo dobrar pernas e braços. As primeiras aulas foram ridículas, eu não conseguia fazer decentemente nenhuma posição e, por incrível que pareça, não conseguia me sustentar com força por períodos relativamente curtos. Mas após cinco aulas me sinto bem melhor fazendo estes exercícios e gostaria bastante de continuar com a prática.

Neste final de semana fui assistir a uma sessão de cinema do projeto 48 horas na cinemateca de Tel Aviv. Eram todos curtas feitos da seguinte maneira. Todos os participantes recebiam um objeto, um nome e uma fala para realizar um curta. Eles tinham 48 horas para realizar todo o trabalho, desde o roteiro até a edição final. O resultado nem sempre é legal, mas o esforço é incrível.

Vimos 12 filmes, completamente devo ter entendido uns 3, e mesmo assim os que tinham menos fala. Mas foi uma experiência bem interessante. Os atores estavam na platéia, alguns dos responsáveis subiram para explicar a experiência que tiveram e por fim vi como mesmo os que não conseguiram terminar a tempo ou não tiveram idéias legais gostaram de ter participado.

No dia seguinte comemoramos o aniversário do Rafinha. O dia começou cedo com o Flávio me buscando em Tel Aviv, depois fomos ao cinema. Dessa vez entendi por volta de 80% dos diálogo de Hop, o Coelho. Fiquei muito feliz de ter entendido tanto. Após ao cinema fomos a pizzaria Volcano, que fica no mesmo estabelecimento da sorveteria Iceberg. 

Comemos uma pizza de alta qualidade e tomamos um sorvete de igualmente alta qualidade. Ótima combinação para o dia que fazia. Na noite o Rafinha foi para o batizado de capoeira (esporte que pratica há 4 anos). Incrível como samba, capoeira e futebol está espalhado pelo mundo. 

Fora o último ponto, não me identifico nem um pouco com os outros dois. Curioso como tendo nascido lá não me ligo nisso e um monte de gente tendo nascido tão distate gosta tanto disso. Talvez os ingleses pensem o mesmo pelo meu gosto pelo rock, vá saber.

Amanhã vou a uma viagem para Jerusalém com o pessoal do Ulpan. No dia seguinte é Shavuot, uma outra festividade judaica. Shavuot ocorre 50 dias após a saída do Egito, ou seja, 50 dias após Pessach. 

Neste dia o povo judeu recebeu a Torah no deserto. Há uma conexão entre as duas festas, portanto. Outro ponto da festa é que ela marca o início de um período de colheitas e nessa época, quando ainda havia o Templo Sagrado, eram oferecidas frutas (as primeiras da colheita) e alguns animais para os sacerdotes e levitas (sim, se fosse hoje eu receberia presentes). 

É costume nessa festa fazer uma refeição festiva à base de leite. Dizem que escolheram por fazer com derivados de leite por desconhecerem as regras da Cashrut (a dieta judaica), recém conhecida com o recebimento da Torah.

O clima já está esquentou, apesar de ainda não ter começado o verão, a temperatura já é alta, as praias estão lotadas e o ar-condicionado é ítem obrigatório em tudo. 

Abaixo algumas curiosidades, só pra não falar que não tem fotos !



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