quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma visão (um pouco) mais clara do conflito no Sudão

Acho que comecei a entender mais um pouco sobre Darfur. A situação não é nem um pouco simples. 

Inicialmente havia um conflito entre o norte de maioria muçulmana e os estados do sul de maioria católica, e onde ficam grande parte das reservas naturais de petróleo e terra fértil. Os estados do sul se sentiam prejudicados pelo governo central do Sudão e se rebelaram em 1983. 

Em 2003 os líderes do norte e sul começaram a se encontrar para firmarem um acordo de paz. Este acordo foi selado em 2005. Porém, em 2003, as três principais tribos do estado de Darfur, que fica a oeste do Sudão, se levantaram contra o governo central por se sentirem discriminadas.

Ainda como parte do acordo de paz, ficou acertada a realização de um referendo para decidir se o sul e o norte continuariam unidos, 6 anos após a finalização do acordo. Isso ocorreu em janeiro deste ano e o sul escolheu separar-se do norte. O estado de Darfur ainda pertencente ao norte apesar de uma antiga história independente.

Na contenda mais recente, que ocorre em Darfur, tomam parte dois adversários muito semelhantes,  ambos muçulmanos e negros. Porém, criou-se uma distinção entre os grupos. Os que vieram do norte, com cultura nômade, são chamados de "árabes" e os do sul, de hábitos notadamente africanos (como a agricultura e a vida em aldeias), são chamados de negros.

O que há é um embate entre os "negros" que se levantaram contra o governo e o governo com a ajuda de milícias árabes (Janjaweed) terrestres, inclusive com o apoio de estrangeiros que se consideram árabes. 

Isso explica porque os refugiados aqui são muçulmanos. Agora, o primeiro conflito ao qual me referi é chamado de Segunda Guerra Civil Sudanesa. Foi uma tentativa de acertar ainda diferenças vindas da época em que era colônia (adivinha de que grande nação que fez besteira também por aqui? Acertou quem respondeu Inglaterra). O sul e o norte eram completamente diferentes e os tios ingleses fizeram questão de juntar os dois ao deixarem o país.

Confirmei toda a história do conflito com o meu colega de classe que ainda me passou um vídeo para assistir (o vídeo não rodou aqui no meu novíssimo computador).

Algumas referências, grandes e complicadas:

http://veja.abril.com.br/241208/p_088.shtml

http://www.pordarfur.org

http://www.ushmm.org/genocide/bearing_witness/sudan_2010/

http://en.wikipedia.org/wiki/War_in_Darfur

http://en.wikipedia.org/wiki/Second_Sudanese_Civil_War

terça-feira, 26 de abril de 2011

As coincidências que nos mostra a vida

Estou muito entusiasmado com a vida por aqui e com a vida em geral. Obviamente minhas obrigações aqui são bem poucas e vivo como alguém que sabe que tem data para acabar. E é incrível como isso faz muita diferença, os problemas do local te influenciam muito menos. 

Parte da diversidade de Tel Aviv. Um religioso levando seu filho no carrinho, detalhe que ele em si anda de patins.

Quando eu morava em Buenos Aires era a mesma sensação, e conversando com amigos que moraram fora no mesmo esquema que eu, sentiram a mesma coisa. Fascinante como a cabeça influencia toda a nossa experiência em tudo, sabendo dominá-la podemos ter uma vida bem mais legal, quisera eu ter a mesma coisa com o Rio.
O antigo e o novo convivem no bairro de Neve Tzedek.
A vida nos traz cada surpresa que ficamos realmente encantados. Assim que voltei a trabalhar no Rio tive a sorte de produzir o texto técnico de um livro que fora entregue para a FIFA. O objetivo do livro era mostrar que o Rio podia ser uma das sedes da Copa no Brasil, obviamente o Rio seria, mas precisávamos mostrar. 

Prédio estiloso em Tel Aviv.
 Na época trabalhei com algumas pessoas ligadas à prefeitura em parceria com uma empresa de comunicação também ligada a ela. Dentro desse processo ficamos submetidos à coordenação de um cara chamado Bernardo Vilhena. Eu achava ele muito gente boa e tivemos um bom entrosamento. 

Loja de arte com temas judaicos.
A curiosidade vem que ele simplesmente era um dos grandes compositores dos anos 80 no Brasil. Ele compôs Menina Veneno com o Richie e assina várias do Lobão, dentre outros. Eu sempre gosto dessas coincidências. 

Ontem por algum motivo resolvi procurar o nome de um camarada que eu havia conhecido na Hungria em 2008. O cara chama-se Robert Selby, quem leu o outro blog vai lembrar que ele era o camarada que aparecia tocando Elvis. Pois bem, encontrei ele na internet e descobri que ele está tocando profissionalmente! Essa vida nos traz surpresas a cada dia.

Ontem eu fui a um evento para lembrar a guerra que ainda hoje acontece no Sudão. Um dos nossos colegas do Ulpan é sudanês e nos chamou, achei interessante ir. O evento teve música e ainda uma espécie de teatro no qual os líderes mundiais sentavam em uma mesa e debatiam o assunto. O texto era obviamente político mas permeado de muito humor. Achei o discurso interessante demais porque eles falaram que são refugiados e querem voltar ao seu país, estão aqui momentaneamente para sobreviver e não para construir uma vida.

Algumas das pessoas que estiveram presentes no ato com seus filhos.
O conflito, em termos gerais, é entre o norte muçulmano e o sul católico. O sul detém poços de petróleo, é composto por maioria negra e se diz perseguido pelo norte. Obviamente o conflito não é tão simples assim e eu não tenho tudo claro. Vou consultar o nosso amigo amanhã, quando voltam as aulas, e lhes retorno. Ainda há a região de Darfur que está envolvida de alguma maneira no conflito e eu não sei qual a relevância.

Cartazes indicando o que está acontecendo hoje no Sudão.
Mas a questão que eu acho interessante é que há entre os refugiados daqui muçulmanos, e isso pra mim é algo significativo (não no caráter numérico, mas no caráter moral). Israel, o único país judeu do mundo, recebe muçulmanos refugiados de conflitos que não são recebidos por outros países árabes. É algo que me fascina.

Acredito que estou me adaptando mais à cidade e ao estilo de vida por aqui. Fomos num bar que vendia Cava (um tipo de espumante espanhol) e outros artigos da Espanha. Aprendi que todo vinho em Israel precisa ter a classificação entre casher e não casher, assim não há confusão. Conseguimos tomar um que era Casher para Pessach (que atendia às normas da festa em questão) e passamos boa parte da noite bebendo e batendo papo.

Gente por todos os lados da cidade até tarde. Eu simplesmente adoro isso, preciso disso, cidades que não tenham a vida noturna ativa não me satisfazem. Curioso isso porque apesar de eu gostar da noite sou muito mais do dia. Prefiro fazer tudo de dia, gosto de acordar cedo, gosto da claridade e de tudo de dia. Mas preciso de uma noite de vez em quando, clima boêmio e claro, uma cerveja. Mas é pessach então estamos só no vinho.

Rafa e eu na Tahanat (uma estação antiga de trem) que atualmente serve de área de recreação com diversos ateliês e restaurantes.
Bel ensinando como se come um sorvete!
No dia seguinte fui a uma praia com o Maurício, esqueci a câmera mas na próxima vez levo. Gostei bastante do visual da praia, mas como ponto contra a praia era de pedras. Muito incômodo isso, não me lembro de ter visto no Brasil praia alguma com pedras, aqui tem de todos os tipos. Areia fofa, areia dura, pedra, grama, junco, tem com o que você quiser.

Da praia demos um pulo na casa do Maurício para comer algo, tomar um banho e ir para um samba. Eu não gosto de samba, definitivamente, mas era um ponto de encontro com os brasileiros, então fomos para lá. Mal tinha chegado quando a Bel e o Rafa me encontraram! Não havíamos combinado mas nos encontramos, fiquei muito feliz! Fiquei com eles um tempo, e depois eles até dançaram conosco, a Bel adora música e estava muito animada. A Gabi tentava fazer o Rafa dançar, mas ele só queria dançar se fosse capoeira.

Conheci muita gente do Brasil que inclusive estudaram no TTH (minha primeira escola) e eu não conhecia. Vi também uma galera do Hillel e de outros lugares da comunidade judaica do Rio. É muito legal ver todo mundo por aqui, começando tudo de novo, com novos objetivos. E ver que tem pessoas com a cabeça parecida com a tua, disposta a mudar e sempre tentar sem medo é algo que reafirma nossas convicções.

Rotschild, uma das principais ruas da vida de Tel Aviv. A noite essa rua fervilha de gente por todos os lados. Nela também fica o local onde foi declarada a independência do Estado.

Ainda nesse bar conhecemos um cubano, que fora Capitão no exército de lá e fugiu com a família. Mora há 18 anos em Israel, sua mãe mora hoje na Itália, e mesmo hoje, tem o visto recusado para visitar a família em seu país. Muito duro ter de fugir de sua pátria por questões de convicção ideológica.

Outro dia, saindo da academia, percebi que há um caixa automático do lado de fora do mercado que fica do lado da academia. A curiosidade é que o equipamento não ficava na parede, nem preso ao chão, ele ficava sobre rodas para facilitar o deslocamento, coisa inimaginável no Brasil.

Aliás, Israel tem coisas de primeiro mundo e coisas de terceiro mundo. Então acho que está na metade do caminho entre um e outro. Você pode na praia ou numa cachoeira deixar seus pertences e nadar na volta (embora já tenha escutado casos que dizem que você não deve faze-lo). A segurança nas ruas é bem maior que no Rio e dá pra sentir isso pela quantidade de pessoas que andam na rua desacompanhadas (inclusive meninas) com celulares, de bicicleta, despreocupadas.

Lendo um blog em O Globo descobri esse site aqui: http://www.friendasoldier.com. A idéia é que soldados respondam a quaisquer perguntas sobre todos os assuntos através dele, criando um diálogo franco e aberto. Já li algumas conversações interessantes especialmente com pessoas do Oriente Médio, vale conferir.


Ponto de passagem para a Faixa de Gaza. 

Para fechar Pessach, ontem fomos Maurício, Marcelo e eu fazer uma caminhada perto do Mar Morto. Aproveitando a viagem para o sul visitamos a Cratera de Mitzpe Ramon. O nome da cratera é Machtesh Ramon e fica no deserto do Negev. Ela é uma formação exclusiva do deserto do Negev. A vista é deslumbrante porque vai ao horizonte e o silêncio só é quebrado pelo vento e por alguns turistas se aproximando.

Machtesh Ramon.
Quem tem medo de altura?
Definitivamente eu não tenho.

Passamos pelo monte Sodom (onde ficaria Sodoma), de lá avistamos a Jordânia e a região das montanhas de Moab (há referências ao povo moabita na Torah) e ficamos deslumbrados com a paisagem do lugar mais baixo da terra. O calor aumenta nessa região e a visão parecia ficar nublada, provavelmente pela evaporação de água que ocorre lá (um problema atual é a drástica diminuição do volume de água no Mar Morto, pela evaporação e pela constante utilização de seus recursos minerais por empresas).

Mar Morto com vista para a Jordânia, ao fundo. Neste ponto vemos piscinas para a coleta de sal e minerais.
No caminho passamos pelo complexo de Dimona, que fica bem isolado da cidade. Não se sabe ao certo se Israel possui ogivas nucleares, o mistério pelo menos tem jogado a favor da paz no Estado. Depois desta volta fizemos a trilha que foi bem rápida mas recompensada por um banho de cachoeira. Pois é, no meio de toda a secura da região havia uma cachoeira e vegetação.

A cachoeira recompensando a caminhada.
Aqui em Israel Pessach termina um dia antes que fora de Israel (não só o território político, mas também em algumas outras áreas nas vizinhanças). As festas fora dessa região tem um dia a mais, adicionado por eventuais problemas sofridos por mensageiros que levavam as notícias de festividades de Jerusalém para os outros lugares do mundo.

Aqui em Israel há uma comunidade marroquina grande que trouxe Mimuna, que é uma festa especial para marcar o fim de Pessach. Nela são servidos diversos doces. Eu vi uma dessas na rua e já virou um hábito nacional, integrado e fazendo parte das comemorações.

Como o calendário judaico é lunar-solar, os dias começam no anoitecer e vão ao anoitecer do dia seguinte, isso significa que sempre após as festas tudo volta a funcionar. Por exemplo, uma hora depois do shabbat as lojas abrem. É como se no Brasil nada abrisse domingo e voltasse a abrir domingo a noite, até mais tarde. Isso é legal porque muita gente vai pra rua. Eu, por exemplo, fui tomar uma cerveja para quebrar Pessach e voltando pra casa passei no mercado para fazer compras (era 1 hora da manhã). Preparei um belo sanduíche com pitta (pão árabe), hummus e wurst (salame de carne), coisas que não comia há 7 dias.

Segue aqui o link para o clipe do Robert: http://www.youtube.com/watch?v=SrDzFInmJTs e o link para o post do outro blog: http://www.youtube.com/watch?v=SrDzFInmJTs.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Aventura na Galiléia, Pessach e um pouco do aniversário

O que é preciso para fazer com que as pessoas respeitem as regras? Descobri que não basta educação na escola. Todos aqui estudam em boas escolas e o trânsito não reflete a educação recebida. Será que só com um Estado impondo multas e restrições? As motos andando na calçada em velocidade mais alta do que a "tolerável" e pessoas parando o carro em cima da faixa de pedestres são inadmissíveis.

O hábito de andar por todos os lados de bicicleta é muito bom, agora de vez em quando eu vejo umas bicicletas já enferrujadas presas em postes e às vezes só a corrente. A prefeitura podia recolher isso e vender como sucata, já que ferro vale muito por essas bandas.

Na segunda dia 11 fui ao Ministério do Interior. Uma burocracia infindável, perdi 4 horas esperando ser atendido e quando o fui me informaram que eu poderia ter evitado tudo isso. A questão é que para conseguir um visto de permanência (brasileiros têm 3 meses isentos de visto) sendo judeu é bem mais fácil do que não sendo. 

Bastaria eu ter ido a agência judaica munido de uma carta de algum rabino brasileiro que atestasse que eu sou judeu e tudo ocorreria bem mais facilmente. A carta já consegui, porém, como é Pessach todos os órgãos estão fechados por uma semana (e a gente achava que só tinha carnaval no Brasil). Então no dia 27 entro em contato com uma senhora responsável por este assunto e tudo deve ser resolvido mais facilmente. 

Pelo menos nessas 4 horas terminei o livro que estava lendo sobre a independência de Israel do ponto de vista do líder do Etzel (Irgun Tzvai Leumi), Menachen Begin. O livro é altamente recomendável e tem uma versão em português. 

Fiquei sabendo de algo muito legal que ia rolar essa semana aqui, infelizmente no dia em que eu viajava para Haifa para fazer uma viagem. Era o Madah al HaBar, ou Ciência no Bar. Esse evento é bem legal. Ano passado eu li que fizeram isso em algumas viagens de trem. Funciona assim, os interessados se inscrevem nos locais e enviam sugestões de tema. Um professor da universidade ou especialista no assunto prepara uma conversa sobre o tema. Todos no bar vão para beber e falar de ciência. Incrível né?

Na quinta da semana passada fui para Haifa. Fui me encontrar com o José para fazermos a caminha de mar a mar, saindo do Mediterrâneo e indo até o Mar da Galiléia. No caminho notei o trem bem cheio. Diversas pessoas se acomodaram no chão depois de o trem entrar em movimento. 


Estava cheio mas não era como no Rio, que é insuportável, aliás, não se compara ao trem de maneira alguma e também não se compara ao metrô. O trem é mais confortável e o ar-condicionado funciona. 

Chegando em Haifa o José me buscou na estação. Fomos para a casa dele para arrumar as coisas e aproveitamos para fazer um lanche. A janela da sala do José tem vista para o Mar Mediterrâneo, a vista é bem impressionante. Partimos da casa dele para buscar um amigo que faria a caminhada conosco. Ele mora numa outra cidade, ou num destrito, não sei bem, chamado Atlit. Parecia ser um lugar pequeno, mas com diversas casas. A casa dele era bem legal e espaçosa. Eu gosto de casa e eu gosto de espaço.

O amigo do José ainda não estava pronto, me falou que o José normalmente se atrasa e não esperava que ele aparecesse no horário combinado. Mas como eu estava lá, as coisas foram diferentes ! Depois de nos prepararmos para a viagem finalmente partimos. 

O pai do José nos havia convidado para jantar no Kibutz antes de partir para a viagem. Chegamos com 1 hora e meia de atraso na casa dele. No caminho, fui conversando com o José para saber que Kibutz era o dele. E em mais uma dessas coincidências da vida, o Kibutz no qual eles moram é exatamente o Kibutz onde minha família mora. 

Curioso saber que eles sempre se conheceram mas nunca souberam que eu era parente da tia Mimi. Como já era tarde não fui visitar a tia Mimi. No caminho para o Kibutz o carro do Zé (que é um utilitário japonês) começou a fazer um barulho. Eu que sempre escuto essas coisas em carro logo o alertei e paramos para verificar. Não achamos o problema, mas na hora em que voltamos para a estrada o barulho havia cessado.

Fomos pela costa até o norte, chegamos quase até Rosh HaNikrá, fronteira com o Líbano. Aliás, as montanhas que são a fronteira com o Líbano eram visíveis e estavam próximas. Procuramos ainda por 30 minutos um bom lugar para dormir. Não fazia muito sentido para mim ficar procurando um lugar especial para passar a noite, se era só isso que faríamos. Por fim ficamos em Achziv, que era o ponto inicial escolhido, acampamos na areia de frente para a praia.




A noite foi fria, mas acordar na praia foi muito legal. Armar a barraca foi instantâneo mas começar a dormir nem tanto. Na noite eu pude usar uma das coisas mais úteis que comprei em toda a minha vida, uma lantera de cabeça. Como é prática e como é eficiente. Ela me ajudou não só a montar a barraca, como a achar o local e para me locomover durante a noite. De todos os modos, acordamos 6 da manhã (tendo ido dormir à meia noite) e  começamos o dia. Aproveitei para rezar. Tomamos um café (eu um chá), desarmamos a barraca e fomos buscar um lugar para estacionar o carro. 






Entramos num colégio e paramos o carro. Não sei como nos deixaram entrar, mas uma vez dentro, armamos nossas mochilas, escovamos os dentes e fomos para a caminhada. Na hora de sair o portão estava trancado. Fortuitamente eu tinha prestado atenção na mão do senhor que nos abriu o portão e vi o desenho do código, abri o portão e os dois ficaram se perguntando como eu havia feito aquilo.






Da praia fomos andando pela estrada, encontramos o rio que levava ao início da trilha. A trilha em si não começava na praia, então fomos pela nossa maneira, lendo mapas. Os caras como já foram do exército e marinha, liam mapas e se localizavam muito bem, não tive problemas quanto a isso e aprendi a ler mapa também. O Zé sabe também ler as constelações, isso é coisa que raramente temos contato no Brasil. 

Passsamos por uma ponte destruída e havia uma explicação dizendo que o Irgun tinha realizado a noite das pontes. Noite na qual destruíram várias pontes por todo o território de Israel, sempre com o motivo de desestabilizar a ocupação inglesa. Fiquei bem feliz de passar por um ponto histórico.



A caminhada do primeiro dia foi muito legal e muito bonita. Assim que chegamos à trilha havia um ótimo lugar para tomar café. Ficamos numa área de pedras que se formavam acima do nível de um riacho que passava por ambos os lados, formando um espécie de ilhota. Um carro havia tentado passar por ali e ficara atolado. 





Sentamos e comemos um farto café. Atum, queijo, pão, tomate e pepino, e uma barra de cereal. Terminamos e fomos adiante. Muito rios apareceram na nossa frente. No início eu tentei passar de tênis sem me molhar, depois os rios exigiram que eu jogasse pedras tentando formar uma passagem. Depois de fazê-lo algumas vezes, comecei a tirar o tênis para atravessar. Alguns rios adiante resolvi ir de chinelo (que droga que eu havia deixado meus sapatos aquáticos no carro para não carregar preso). 






Essa parte da trilha passava por vários Waadis, que são umas espécies de córregos que se formam em vales. No caminho encontramos algumas pessoas que fariam o mesmo percurso. Cruzamos nesse trecho com várias famílias, vários grupos de turistas e até grupos de clérigos muçulmanos. Eles nos mostraram o que era anis e provamos suas folhas, o gosto era bom. Mas eu cabreiro provei apenas uma pequena porção. 



Passamos por uma fortaleza bem antiga, na verdade, suas ruínas, que ficava no topo de um morro. Não fazia parte do programa, mas eu queria visitá-la, já que estava por lá. O nome do castelo é Montfort. O José falou que pela arquitetura provavelmente era da época dos cruzados. Conferi no Wikipedia e ele estava certo (http://en.wikipedia.org/wiki/Montfort_Castle). 






Fizemos nossa refeição num local que havia sido construído por volta de 1000 anos atrás, com uma vista linda para o vale todo. Era realmente muito legal poder estar desfrutando de algo assim.





Seguimos o nosso percurso, o caminho indicava que poderíamos ou voltar ou seguir, vendo outra parte. Como estávamos no topo, pensamos que o caminho óbvio, fosse o lado que fosse, era descer. Engano. Subimos. E muito. Nesse momento comecei a sentir dores no meu joelho esquerdo. Não era uma dor muscular.






Eu tenho algumas suspeitas para esta dor. A primeira suspeita vem da época em que eu jogava futsal e agarrava sem joelheira, sempre caía em cima do joelho e várias vezes tive umas dores bem fortes. A segunda suspeita é que tenho algum desencaixe do fêmur, que não se conecta perfeitamente à bacia. Quando ando muito também sinto dores nessa região. E para confirmar essa hipótese, há cerca de um ano fiz um exame que mostrou que tenho um lado da bacia mais alto que o outro em 1 cm, que é um subterfúgio para compensar algum outro problema. Bom, deste dia até o último dia eu senti o joelho. Dormia, acordava bem, mas logo voltava a sentir.







Andamos mais, terminamos o dia com outra subida forte e finalmente chegamos à estrada que seguindo nos levaria a Abirim. Lá teríamos um camping para dormir, alugaríamos barraca e sacos de dormir. Obviamente alugar sacos de dormir não era uma boa idéia, até eu achar um sem mofo demorei um bom tempo, e quando achei, pensei ser mais prudente dormir com ele virado ao avesso.




Fiz isso, coloquei o cachecol para não passar o mesmo frio da noite anterior, e ao invés de dormir em barraca, preferimos ficar num barracão coberto, ao lado do estábulo. Uns camaradas tiveram a mesma idéia, mas ainda armaram suas barracas para evitar os mosquitos. 

A noite foi pontuada por mosquitos tentando me atacar, eu acordando suado de calor apesar do frio e ainda o despertar provocado por latidos de um cachorro. Acordamos com um susto incrível quando o cachorro começou a latir. Eu ainda zonzo de sono logo identifiquei o cachorro, e ao lado, a barraca me pareceu 3 cavalos sentados. O José no dia seguinte me falou que tinha tido a impressão de que o cachorro era um urso. Quantos devaneios o sono nos provoca.






Acordamos 7 horas, fomos nos aprontar, arrumamos tudo e logo fomos para a estrada. O caminho era pra baixo. Fizemos a caminhada mas não achávamos os sinais da trilha, decidimos descer a montanha até o vale onde ficava o rio. Os cachorros do lugar nos seguiram. Após descermos por partes cada vez mais íngrimes, ficamos isolados do vale por uma cerca e resolvemos subir e procurar a trilha.






Conseguimos achá-la e seguimos adiante. Os cachorros atrás. Comentei com o José que seria bom não que eles nos seguissem. Como de vez em quando passávamos por portões fechamos o próximo. Os cachorros deram um jeito e nos seguiram. E todas as vezes que fechávamos os portões os cachorros nos seguiam. Pelo menos, diferentemente de Bucaresti, estes não tentavam nos morder. 






Depois de uma longa caminhada fomos encontrar com um casal de amigos do Sasson (o outro que nos acompanhou na caminhada). Os cachorros nos seguiram, passaram pela estrada e deitaram no posto. Aliás, toda vez que parávamos para comer eles descansavam e arrumavam aonde beber água.  



Seguimos a caminhada e fomos até uma escola que seria um ponto de encontro para irmos para Amirim, uma cidade com várias pousadas. A esposa do Sasson nos buscou, levou o casal que estava conosco para pegar o carro, o José foi pegar o carro dele e a noite nos encontramos na pousada. Havia uma bela Jacuzzi com vista para o Mar da Galiléia. Depois de dois dias dormindo em barracas, um banho de água quente na Jacuzzi, uma janta e uma cama foram providenciais.






No dia seguinte demoramos muito para sair. Eu já havia imaginado que teríamos problemas mas não que demoraríamos tanto. Acordamos às 7 e só saímos por volta de 12. Eu vi que não estava nem um pouco satisfeito de estar perdendo tanto tempo para fazer a caminhada. Eu percebi que embora eu nunca tivesse feito isso eu me havia proposto terminar a caminhada e queria fazê-lo de maneira completa. Percebi que não importa o ambiente, eu adoro me propor desafios e superá-los. 






Qual era o sentido de fazer mais de 60 Kms caminhando na natureza? Meu joelho não estava doendo? Por que eu queria tanto terminar de maneira completa a caminhada? Isso tudo fala muito de mim. Outra questão é que o meu objetivo não estava alinhado com o objetivo do Sasson que era fazer uma caminhada parcial e passsar um dia com a família. Acho que faltou a gente ter combinado tudo anteriormente. 

E mais, a janta nos dois dias haviam sido planejadas para serem feitas em restaurantes, não fizemos isso nenhum dia. O primeiro por cansaço e o segundo por preguiça. No segundo o José ainda teve de fazer as compras. Eu gosto das coisas planejadas. Uma caminhada de três dias pelo mato deve ser planejada e não ter sido feita da maneira como fizemos. Enfim, essa é a minha maneira de enxergar a vida, não é a certa, mas é aquela na qual me sinto mais cômodo, controlo mais os imprevistos e me divirto mais. Ter tantos contra-tempos não é comigo, surpresas positivas são bem-vindas, mas elas acontecem mesmo com o planejamento. Surpresas negativas não são nunca bem-vindas e podem sempre ser diminuídas e controladas com planejamento.

No último dia fizemos novamente um esquema de carros e descemos por um rio com o objetivo final de chegar ao Mar da Galiléia. Para isso tivemos de pular um trecho de caminhada, estimamos que 8 ou 10 horas de caminhda (que deveriam ter sido divididas entre o dia 2 e o dia 3). A esposa do Sasson foi conosco assim como sua filha. Eu fiquei espantando que eles não haviam trazido protetor solar e a deixaram com as pernas de fora no sol que fazia.





Neste dia já sentimos o Ramsim (חמםין) sem saber que era ele que havia esquentado tudo. Naquele calor suamos bem mais e tomamos muito mais água. Terminamos a caminhada até o Mar da Galiléia, mas não chegamos em uma praia. Chegamos num lugar com bastante mata costeira, tivemos que trilhar pelo meio das árvores de Junco para chegar ao mar. E o caminho era cheio de lama, mosquitos, sapos, mas não importa, eu nadei no Mar da Galiléia !







Tem uma coisa engraçada, a tradução de junco para inglês é reed. Algum gaiato deve ter errado na tradução ou na ortografia e escreveu red, tá aí porque todo mundo chama o Iam Suf (do hebraico Mar do Junco) de Mar Vermelho.

Depois de toda essa aventura, voltei de Haifa para Tel Aviv, de trem, a noite, sem grandes problemas. No dia seguinte começava Pessach e iríamos para a casa da Malvina. Vi muita gente do exército voltando para casa para passar o feriado. Já deu também pra sentir as ruas todas mais cheias.

Pessach é a história da saída dos judeus do Egito, deixando a escravidão e voltando para Israel. Os judeus eram escravos no Egito por um pouco mais de 400 anos. Apesar de inicialmente terem tido alguma posição de destaque, logo foram escravizados e começou a penúria que seguiu o povo por anos e anos e que se repetiu durante praticamente toda a história judaica.

Para libertar os judeus, surge Moisés, um emissário de D-us que foi responsabilizado de tirar o povo daquela condição. Moisés se dirigiu ao Faraó e requisitou a libertação do povo. Mostrou através de algumas magias que D-us estava o apoiando. O Faraó não se sensibilizou e aí aconteceram as 10 pragas que assolaram o Egito. A última, a mais pesada, foi a morte dos primogênitos. Nessa hora o Faraó decide liberar os judeus.

Mas depois da decisão tomada ele resolve voltar atrás. Então os judeus são obrigados a correr para sair, com a pressa, o pão não tem tempo de ficar preparado e por conta disso levam aquele pão duro, que mais parece um biscoito, a matzá. Como simbolismo dessa época, até hoje em Pessach não comemos nada fermentado. Para facilitar as coisas, os judeus oriundos da Europa não comem grãos, ou seja, não tem arroz.

Minha dieta no Brasil nessa época consistia em matzá, batata e ovos. Aqui eu estou variando mais, tem várias coisas que são feitas sob os preceitos de Pessach.

Passamos a noite do Seder (a janta de Pessach) na casa da Malvina. Eu gostei muito das palavras que ela nos falou antes de começar o Seder. Eu não sabia bem qual era o nosso grau de parentesco mas sempre soube que ela era da família. Ela explicou-nos a história.

Após a guerra, seu pai e sua mãe chegaram ao Brasil sem praticamente nenhum parente. Meu bisavô Miguel então os acolheu na família pela afinidade (acredito eu que por ambos serem poloneses) e desde então todas as festividades são comemoradas em conjunto. Desta vez ela se disse orgulhosa por receber em casa alguém da família mas na condição inversa. Eu fiquei muito feliz de estar participando deste momento bem marcante para ela.

Hoje é meu aniversário e tive um almoço em família com a Gabi, o Rafa e a Isabel. O almoço foi num restaurante bem legal em Neve Tzedek, o primeiro bairro judeu que se formou depois que as famílias saíram de Iafo. Seguindo a refeição, fomos tomar um sorvete. Aliás, uma história a parte, a Bel parecia que tinha se pintado de chocolate.

De lá a Gabi me deixou em casa e eu passei na praia para dar um mergulho. A noite devo jantar fora com a galera do Brasil. Muita gente me mandou mensagens de vários lugares, a internet realmente fez o mundo menor e posso sentir que estou bem próximo a todos os meus amigos. Sem dúvida esse é um aniversário especial.