sábado, 2 de abril de 2011

O conflito por quem está do outro lado

Estou tentando estabelecer uma rotina, mas a quantidade de imprevistos que surgem é enorme. Ainda preciso finalizar umas burocracias por aqui, como o visto de estudante, a questão do seguro saúde (por enquanto estou com o básico do cartão de crédito) e algumas importadas do Brasil, como o IR (aliás, porque sempre temos de fazer isso, o governo ainda não consegue calcular quanto quer nos tirar?!).

Pensei que eu ia conseguir descansar na segunda. Cheguei do Ulpan, fui pra academia, fiz meu almoço e estudei bastante. Para se ter uma idéia, perto de 22hs eu estava lendo sobre a gramática do hebraico. Foi por volta desse horário que o Leo me ligou chamando para jantar. Eu já estava na cama lendo sobre a gramática, fazendo conexão com outros idiomas, já tinha jantado, pensei e declinei o convite. 

Pouco depois me liga o Leo novamente, que já havia falado com o Maurício, perguntando se eu não queria ir. Resolvi ir. Ele nem sempre consegue ficar livre pra sair de papo, íamos os três, não havia mal. Fomos num restaurante bem perto do Ulpan chamado Hasdera. A comida era legal, por um preço razoável. É uma opção para quando der preguiça de cozinhar.

Na terça, como sempre, acordei cedinho, fui pro Ulpan e tudo foi dentro da rotina. A noite, porém, fomos a um festival gastronômico em Jerusalém. Não é longe daqui, por volta de 65 Km da saída daqui à entrada de lá. Fomos o Leo, os pais dele, o Maurício e eu. 

Praça em frente ao Portão de Yaffo, na entrada da cidade velha.

Já na entrada da cidade velha, no portão de Yaffo, havia uma espécie de feirinha, com várias barracas exibindo seus produtos. O Mauricio comprou um prato de queijos e junto com uma amiga dele, Iris, compramos uma garrafa de vinho. O frio da cidade ajudou bastante na escolha.


Dali entramos na cidade velha e logo por ali havia uma banda tocando, acho que tinha uma caixa, um bumbo, um acordeon, um saxofone e uma tuba. Perto dali fica o restaurante armênio que é também um museu. Entramos para ver e nos falaram que o restaurante estava fechando. Tenho vontade de comer nesse restaurante, a comida deve ser bem diferente.

Interior do restaurante armênio.

Detalhe dos lustres.

Seguimos até uma praça onde se concentravam mais barracas, as comidas que mais me chamaram atenção já haviam acabado. Eu queria provar a comida persa, mas acabei tomando uma sopa amarela, bem gostosa. 

Praça com diversas barracas de comida.
Antes de escolher o que comer, descemos mais e fomos ao Muro das Lamentações (Muro Ocidental). Ver a cidade velha a noite é muito bonito. E impressiona como tem gente todas as horas do dia lá. Eu vi muita gente rezando. O Maurício estava me contando que sempre há gente por ali, não importa a hora do dia. A entrada ao Muro é permitida 24 horas por dia. 

Vista antes de chegar ao Muro.



 

  
A sinagoga HaRambam reformada.

No dia seguinte eu havia combinado com o proprietário do apartamento de assinar uma nota de garantia com ele em Kfar Saba, já que o Flávio também precisaria assinar. Fui dentro do previsto pra lá, assim que cheguei encontrei as crianças que fizeram uma grande festa. 

Conversando com o Flávio ele me falou que naquele dia era o jogo de Israel contra a Geórgia pelas eliminatórias da Eurocopa. Ele me perguntou se eu animava e na hora decidi que queria ir. Liguei para o proprietário do ap desmarcando tudo (que me havia demorado 2 semanas para marcar!) e fomos pra Yaffo, onde seria o jogo.

O caminho foi um desespero para controlar o horário. Engarrafamento, não achávamos vaga, tudo uma confusão. Mas finalmente chegamos e conseguimos parar. Fomos correndo para a bilheteria - Ingressos Esgotados! Que decepção.... Não nos restou outra coisa a fazer que ir comer no Abuláfia. 

Já é o segundo restaurante árabe que eu vou que funciona da mesma maneira. Você chega e eles te oferecem de entrada uma quantidade enorme de saladas. De todos os tipos: hummus, tehina, vegetais em conserva, repolho, berinjela, tem de tudo. Diversos tipos de pães acompanham as refeições, especialmente a pitta. 

Farta entrada repete-se em vários restaurantes árabes. Esse é o Abulafia.

Chegou finalmente quinta e eu já implorava por uma noite de sono razoável. Quando já estava almoçando escutei uma grande comoção na rua, sirene, algumas vozes sendo escutadas pelo megafone. Eu achei tudo natural, porque já havia escutado isso quando alguns caminhões de obra manobram.

Mas dessa vez foi diferente. Um dos caras que mora comigo perguntou se eu sabia o que estava acontecendo e me explicou. Havia uma bolsa largada na esquina da nossa casa. Em Israel ninguém deixa bolsa desacompanhada, já que isso indica um possível atentado. Desci para ver o que acontecia.

A bolsa ao fundo, perto do poste.

Os policiais haviam isolado completamente o trecho da nossa rua, cerca de 100 ou 150 metros distante do prédio. A bolsa estava na esquina mais ao sul. O trânsito completamente interrompido. Fomos para trás da linha estabelecida pelo carro da polícia para assistir ao procedimento.


Depois de alguns minutos um policial com vestindo uma espécie de colete passou uma corda pelos postes próximos à bolsa, depois passou a corda pela bolsa. Ele se afastou sem dar as costas para a bolsa e depois de um tempo pudemos ver que com aquele mecanismo ele levantou a bolsa e começou a sacudi-la de uma distância segura.


A bolsa acabou abrindo e o que caiu foram diversas partes de roupas. Dessa vez não foi necessário utilizar o robo que eles utilizam para desarmar bombas. Mas foi incrível como tudo aconteceu de maneira coordenada. A polícia isolou o local, o esquadrão anti-bombas chegou ao local, tudo foi feito e a rua liberada.

Depois disso, fui ao shopping comprar uma lanterna para cabeça e um sapato que fosse próprio para caminhada na água. Acabei não saindo na quinta (que é a sexta daqui) e acordei cedinho no dia seguinte. Fiz várias coisas antes de sair de casa. Eu queria ir ao shopping que não fica no centro comercial, e portanto um pouco mais afastado. Depois de muito procurar nos mapas em hebraico, nos sites, achei o número do ônibus que me levaria.

Grande Dr. Osvaldo Aranha, brasileiro que votou a favor da criação do Estado de Israel em 1948. Conciliação é a tradição diplomática do Brasil.

Fui andando até a rua e fui procurando, ponto após ponto, algum que indicasse que o ônibus passasse por ele. Não encontrei. Como resultado fui andando até o shopping, deste fui a uma rua movimentada comprar bermudas para caminhada e por fim, caminhei para o outro shopping. O resultado foram 6,5 Km de caminhada por não ter encontrado o ônibus.

Nesse mesmo dia o Rafa tinha jogo bem perto aqui em casa, contra o Maccabi Tel Aviv. Fomos assistir ao jogo e fiquei a tarde com eles. O porto daqui está reformado e fica cheio de crianças. Os israelenses, pelo que tenho visto, têm muitos filhos e planejam toda a sua vida em função das crianças. Gosto muito desse ponto na cultura deles. É algo que me parece ser central em suas vidas. 

A sexta ainda não estava terminada e uma das coisas mais interessantes estavam por acontecer. Fui com o Maurício num bar que tem música ao vivo todos os dias. Estava rolando um som bem legal. Do nosso lado tinham duas meninas com cara de israelense falando bastante entre elas e no meio falando frases inteiras em inglês. 

Achei bem estranho isso e o Maurício comentou que de vez em quando uns israelenses tem esses hábitos. Depois de um tempo as meninas nos perguntaram se éramos russos. Não é a primeira vez que confundem o nosso sotaque com russo.

Falamos que não, que éramos brasileiros, que ele morava aqui, que eu estou morando aqui de passagem. E elas falam, somos palestinas !

Ficamos um tempo ainda falando sobre idiomas, sobre Brasil, sobre a cultura brasileira até que caímos na inevitável questão política. Foi a primeira vez na vida em que eu tive de medir meu discurso por ser maioria em algum lugar e por estar numa condição de preponderância em algum assunto.

Imaginem a situação das meninas, que vão a Israel, sendo que Israel tem uma relação instável com o país delas, e elas se dispõem a falar sobre uma questão que exacerba tanto os ânimos. Foi uma situação bem diferente.

Um ponto que me chamou a atenção é a maneira como elas enxergam o conflito. Sob a ótica delas, os judeus oriundos da europa roubaram a terra das famílias delas. Eu achei bem curioso isso, porque tanto árabes quanto judeus sempre habitaram essas terras aqui. 

Ela falou que não era permitido aos palestinos entrarem em Israel e eu falei, como não, vocês estão aqui. E aí elas me explicaram, uma delas tinha passaporte jordaniano, e como a Jordânia está em paz com Israel, é possível à ela vir para Israel. Já a outra me disse que tinha entrado ilegalmente. O carro delas tinha placa de Israel e eu acho que isso pode contribuir para facilitar a entrada delas, além do fato de serem duas mulheres.

Essa que tinha a cidadania palestina me disse que sua família era de Haifa. E eu falei que haviam muitos árabes com cidadania israelense. Ela falou que nem todos foram corajosos na guerra de 48, querendo dizer que sua família fugiu na época da guerra. Sobre esse fato, há algo curioso. Os jornais árabes da época induziram vários árabes a deixarem suas casas, para que os exércitos árabes pudessem atacar as posições israelenses sem por em risco a vida de civis e que depois destas ações eles poderiam voltar aos seus lares.

Se você olhar com os olhos de hoje, parece uma grande contradição a posição de preservar vidas civis em conflitos por parte dos árabes. Outro ponto de debate que eu tentei abordar foi o fato de que nenhum país como Palestina, Jordânia, Iraque, Libano, Síria e por aí vai, ter existido antes do domínio inglês, tendo todos eles sido uma invenção, tal qual foi realizada na África. Ela se recusou a observar esse ponto.

Mas posso falar que em linhas gerais foi legal conseguir conversar com pessoas que vivem do outro lado do conflito. Se as pessoas de dois lados conseguem conversar sobre um assunto, já é um ótimo começo.

No sábado o dia amanheceu lindo, eu saí para ir a praia justamente quando o tempo virou, mas não foi isso que me impediu de dar uma mergulhada no mar. Os hábitos de praia aqui são bem curiosos. O barulho do frescobol deles é muito chato. A bola é menor e parece ser mais rígida, toda vez que ela bate na raquete faz um barulho bem alto. Imaginem isso multiplicado pelo grande número de praticantes do esporte que há por aqui. 

O Maurício me contou sobre uma lei que está pra ser aprovada que me pareceu interessante. O governo quer que o salário mais alto das empresas seja no máximo 50 vezes o salário mais baixo. Não tenho ainda opinião formada sobre o assunto, mas essa lei quer fazer com que haja um limite para a discrepância de vencimentos. Em linhas gerais, o Estado sinaliza querer controlar a diferença entre os mais ricos e os mais pobres.

Vi também um grupo de umas 60 ou 70 pessoas dançando música israeli, senti-me como num casamento judaico. A cena parecia aquelas nas quais vemos diversos chineses fazendo Tai Chi Chuan. E na areia em si, vi gente com violão e atabaque, cachorros, pessoas fumando narguila, pessoas de bota, calça, biquinis extravagantes. É uma verdadeira salada e ninguém parece se importar com ninguém.

2 comentários:

  1. Interessante essa lei... quase um socialismo... não deixa a Dilma ficar sabendo não ;)

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  2. Aeee. Finalmente estou em dia com o blog! Que decepção a história do jogo poxa... Se cuida. beijo

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