terça-feira, 26 de abril de 2011

As coincidências que nos mostra a vida

Estou muito entusiasmado com a vida por aqui e com a vida em geral. Obviamente minhas obrigações aqui são bem poucas e vivo como alguém que sabe que tem data para acabar. E é incrível como isso faz muita diferença, os problemas do local te influenciam muito menos. 

Parte da diversidade de Tel Aviv. Um religioso levando seu filho no carrinho, detalhe que ele em si anda de patins.

Quando eu morava em Buenos Aires era a mesma sensação, e conversando com amigos que moraram fora no mesmo esquema que eu, sentiram a mesma coisa. Fascinante como a cabeça influencia toda a nossa experiência em tudo, sabendo dominá-la podemos ter uma vida bem mais legal, quisera eu ter a mesma coisa com o Rio.
O antigo e o novo convivem no bairro de Neve Tzedek.
A vida nos traz cada surpresa que ficamos realmente encantados. Assim que voltei a trabalhar no Rio tive a sorte de produzir o texto técnico de um livro que fora entregue para a FIFA. O objetivo do livro era mostrar que o Rio podia ser uma das sedes da Copa no Brasil, obviamente o Rio seria, mas precisávamos mostrar. 

Prédio estiloso em Tel Aviv.
 Na época trabalhei com algumas pessoas ligadas à prefeitura em parceria com uma empresa de comunicação também ligada a ela. Dentro desse processo ficamos submetidos à coordenação de um cara chamado Bernardo Vilhena. Eu achava ele muito gente boa e tivemos um bom entrosamento. 

Loja de arte com temas judaicos.
A curiosidade vem que ele simplesmente era um dos grandes compositores dos anos 80 no Brasil. Ele compôs Menina Veneno com o Richie e assina várias do Lobão, dentre outros. Eu sempre gosto dessas coincidências. 

Ontem por algum motivo resolvi procurar o nome de um camarada que eu havia conhecido na Hungria em 2008. O cara chama-se Robert Selby, quem leu o outro blog vai lembrar que ele era o camarada que aparecia tocando Elvis. Pois bem, encontrei ele na internet e descobri que ele está tocando profissionalmente! Essa vida nos traz surpresas a cada dia.

Ontem eu fui a um evento para lembrar a guerra que ainda hoje acontece no Sudão. Um dos nossos colegas do Ulpan é sudanês e nos chamou, achei interessante ir. O evento teve música e ainda uma espécie de teatro no qual os líderes mundiais sentavam em uma mesa e debatiam o assunto. O texto era obviamente político mas permeado de muito humor. Achei o discurso interessante demais porque eles falaram que são refugiados e querem voltar ao seu país, estão aqui momentaneamente para sobreviver e não para construir uma vida.

Algumas das pessoas que estiveram presentes no ato com seus filhos.
O conflito, em termos gerais, é entre o norte muçulmano e o sul católico. O sul detém poços de petróleo, é composto por maioria negra e se diz perseguido pelo norte. Obviamente o conflito não é tão simples assim e eu não tenho tudo claro. Vou consultar o nosso amigo amanhã, quando voltam as aulas, e lhes retorno. Ainda há a região de Darfur que está envolvida de alguma maneira no conflito e eu não sei qual a relevância.

Cartazes indicando o que está acontecendo hoje no Sudão.
Mas a questão que eu acho interessante é que há entre os refugiados daqui muçulmanos, e isso pra mim é algo significativo (não no caráter numérico, mas no caráter moral). Israel, o único país judeu do mundo, recebe muçulmanos refugiados de conflitos que não são recebidos por outros países árabes. É algo que me fascina.

Acredito que estou me adaptando mais à cidade e ao estilo de vida por aqui. Fomos num bar que vendia Cava (um tipo de espumante espanhol) e outros artigos da Espanha. Aprendi que todo vinho em Israel precisa ter a classificação entre casher e não casher, assim não há confusão. Conseguimos tomar um que era Casher para Pessach (que atendia às normas da festa em questão) e passamos boa parte da noite bebendo e batendo papo.

Gente por todos os lados da cidade até tarde. Eu simplesmente adoro isso, preciso disso, cidades que não tenham a vida noturna ativa não me satisfazem. Curioso isso porque apesar de eu gostar da noite sou muito mais do dia. Prefiro fazer tudo de dia, gosto de acordar cedo, gosto da claridade e de tudo de dia. Mas preciso de uma noite de vez em quando, clima boêmio e claro, uma cerveja. Mas é pessach então estamos só no vinho.

Rafa e eu na Tahanat (uma estação antiga de trem) que atualmente serve de área de recreação com diversos ateliês e restaurantes.
Bel ensinando como se come um sorvete!
No dia seguinte fui a uma praia com o Maurício, esqueci a câmera mas na próxima vez levo. Gostei bastante do visual da praia, mas como ponto contra a praia era de pedras. Muito incômodo isso, não me lembro de ter visto no Brasil praia alguma com pedras, aqui tem de todos os tipos. Areia fofa, areia dura, pedra, grama, junco, tem com o que você quiser.

Da praia demos um pulo na casa do Maurício para comer algo, tomar um banho e ir para um samba. Eu não gosto de samba, definitivamente, mas era um ponto de encontro com os brasileiros, então fomos para lá. Mal tinha chegado quando a Bel e o Rafa me encontraram! Não havíamos combinado mas nos encontramos, fiquei muito feliz! Fiquei com eles um tempo, e depois eles até dançaram conosco, a Bel adora música e estava muito animada. A Gabi tentava fazer o Rafa dançar, mas ele só queria dançar se fosse capoeira.

Conheci muita gente do Brasil que inclusive estudaram no TTH (minha primeira escola) e eu não conhecia. Vi também uma galera do Hillel e de outros lugares da comunidade judaica do Rio. É muito legal ver todo mundo por aqui, começando tudo de novo, com novos objetivos. E ver que tem pessoas com a cabeça parecida com a tua, disposta a mudar e sempre tentar sem medo é algo que reafirma nossas convicções.

Rotschild, uma das principais ruas da vida de Tel Aviv. A noite essa rua fervilha de gente por todos os lados. Nela também fica o local onde foi declarada a independência do Estado.

Ainda nesse bar conhecemos um cubano, que fora Capitão no exército de lá e fugiu com a família. Mora há 18 anos em Israel, sua mãe mora hoje na Itália, e mesmo hoje, tem o visto recusado para visitar a família em seu país. Muito duro ter de fugir de sua pátria por questões de convicção ideológica.

Outro dia, saindo da academia, percebi que há um caixa automático do lado de fora do mercado que fica do lado da academia. A curiosidade é que o equipamento não ficava na parede, nem preso ao chão, ele ficava sobre rodas para facilitar o deslocamento, coisa inimaginável no Brasil.

Aliás, Israel tem coisas de primeiro mundo e coisas de terceiro mundo. Então acho que está na metade do caminho entre um e outro. Você pode na praia ou numa cachoeira deixar seus pertences e nadar na volta (embora já tenha escutado casos que dizem que você não deve faze-lo). A segurança nas ruas é bem maior que no Rio e dá pra sentir isso pela quantidade de pessoas que andam na rua desacompanhadas (inclusive meninas) com celulares, de bicicleta, despreocupadas.

Lendo um blog em O Globo descobri esse site aqui: http://www.friendasoldier.com. A idéia é que soldados respondam a quaisquer perguntas sobre todos os assuntos através dele, criando um diálogo franco e aberto. Já li algumas conversações interessantes especialmente com pessoas do Oriente Médio, vale conferir.


Ponto de passagem para a Faixa de Gaza. 

Para fechar Pessach, ontem fomos Maurício, Marcelo e eu fazer uma caminhada perto do Mar Morto. Aproveitando a viagem para o sul visitamos a Cratera de Mitzpe Ramon. O nome da cratera é Machtesh Ramon e fica no deserto do Negev. Ela é uma formação exclusiva do deserto do Negev. A vista é deslumbrante porque vai ao horizonte e o silêncio só é quebrado pelo vento e por alguns turistas se aproximando.

Machtesh Ramon.
Quem tem medo de altura?
Definitivamente eu não tenho.

Passamos pelo monte Sodom (onde ficaria Sodoma), de lá avistamos a Jordânia e a região das montanhas de Moab (há referências ao povo moabita na Torah) e ficamos deslumbrados com a paisagem do lugar mais baixo da terra. O calor aumenta nessa região e a visão parecia ficar nublada, provavelmente pela evaporação de água que ocorre lá (um problema atual é a drástica diminuição do volume de água no Mar Morto, pela evaporação e pela constante utilização de seus recursos minerais por empresas).

Mar Morto com vista para a Jordânia, ao fundo. Neste ponto vemos piscinas para a coleta de sal e minerais.
No caminho passamos pelo complexo de Dimona, que fica bem isolado da cidade. Não se sabe ao certo se Israel possui ogivas nucleares, o mistério pelo menos tem jogado a favor da paz no Estado. Depois desta volta fizemos a trilha que foi bem rápida mas recompensada por um banho de cachoeira. Pois é, no meio de toda a secura da região havia uma cachoeira e vegetação.

A cachoeira recompensando a caminhada.
Aqui em Israel Pessach termina um dia antes que fora de Israel (não só o território político, mas também em algumas outras áreas nas vizinhanças). As festas fora dessa região tem um dia a mais, adicionado por eventuais problemas sofridos por mensageiros que levavam as notícias de festividades de Jerusalém para os outros lugares do mundo.

Aqui em Israel há uma comunidade marroquina grande que trouxe Mimuna, que é uma festa especial para marcar o fim de Pessach. Nela são servidos diversos doces. Eu vi uma dessas na rua e já virou um hábito nacional, integrado e fazendo parte das comemorações.

Como o calendário judaico é lunar-solar, os dias começam no anoitecer e vão ao anoitecer do dia seguinte, isso significa que sempre após as festas tudo volta a funcionar. Por exemplo, uma hora depois do shabbat as lojas abrem. É como se no Brasil nada abrisse domingo e voltasse a abrir domingo a noite, até mais tarde. Isso é legal porque muita gente vai pra rua. Eu, por exemplo, fui tomar uma cerveja para quebrar Pessach e voltando pra casa passei no mercado para fazer compras (era 1 hora da manhã). Preparei um belo sanduíche com pitta (pão árabe), hummus e wurst (salame de carne), coisas que não comia há 7 dias.

Segue aqui o link para o clipe do Robert: http://www.youtube.com/watch?v=SrDzFInmJTs e o link para o post do outro blog: http://www.youtube.com/watch?v=SrDzFInmJTs.

2 comentários:

  1. numa das esquinas da rotschild há um bar que vende garrafas de espumante baratas !
    lembro que, na época em que morei, era bem badalado !

    ResponderExcluir
  2. Que maneiro Levi.. tinha tempos que não lia seu blog.. deu saudade de viajar novamente.. belíssima iniciativa desse semestre "sabático".
    Dar uma volta a tarde pelo Mar Morto não é pra qualquer um.. Aliás, nem o seu sanduiche de hummus com wurst..hehe
    Boa sorte, boa viagem e um grande abraço!
    Leo Shor

    ResponderExcluir