segunda-feira, 9 de maio de 2011

Yom HaZikaron

Desde ontem a noite até hoje é o Dia da Lembrança pelos soldados caídos em batalhas por Israel. A data ocorre praticamente uma semana após a Lembrança pelos que tombaram no Holocausto (existe alguma diferença de acordo com o dia em que cai a data, como esse ano esse dia cairia na saída do shabat foi adiado em um dia e por conseqüência, o dia da Independência também).

Há uma forte correlação entre as três datas e o Pessach que foi pouco antes. Em Pessach comemoramos a liberdade de ter saído do Egito. Um tempo depois ocorre um dia tristíssimo que lembra as loucuras que os homens podem cometer com relação ao preconceito. No dia de Lembrança do Holocausto, todos se entristecem perante um dos atos mais vergonhosos que a humanidade foi capaz de cometer. 

E logo em seguida, uma semana depois, ocorre o Dia das Lembranças pelos filhos de Israel que caíram em batalha por Israel, novamente remetendo à liberdade. A história desse país não é simples, nem um pouco. Devemos lembrar que antes da Segunda Guerra já havia combates em Israel contra os ingleses. Durante a Guerra o combate cessou já que os ingleses estavam guerreando contra os alemães.

Porém, ao fim da guerra houve a retomada das batalhas e mais mortes de judeus que estavam combatendo pelo direito de ter um país no qual não sofressem mais por sua escolha religiosa. O que parece é que a Segunda Guerra foi apenas o marco mais significativo de toda a história do povo, que sofreu em praticamente em todos os países nos quais esteve.

A impressão que tenho é que fora de Israel o Holocausto é a data mais triste, porque de determinada maneira, é uma data triste para a humanidade, já que foi uma experiência coletiva de algo deplorável. Porém, em Israel eu senti que a data de Lembrança pelos que tombaram em batalhas é mais forte, não é mais íntimo, mas é mais recente.

Já na Guerra de Independência ocorreram mortes e até hoje há gente que dá sua vida pelo país. Imaginem que num país de 7 milhões de pessoas, em que 5 são judeus, e portanto obrigados a servir ao exército, cada pessoa conhece alguém que em algum momento acabou morto.

A cerimônia foi incrivelmente triste. Tal como na semana anterior, os depoimentos são as coisas que mais marcam. E faz parte do país honrar a memória daqueles que perderam suas vidas em detrimento da defesa e segurança do país, um lugar onde estamos mais seguros do que em terras estrangeiras.

Depois de assistir a essa cerimônia fico convencido de que o que mais querem os israelenses é paz. É notável que eles sentem enormemente a perda de seus parentes. Eu fui à Praça Rabin assistir à cerimônia ao vivo. Revezavam-se músicas notadamente tristes com filmes em que as famílias davam seu depoimento.

Como já ouvi aqui mais de uma vez, cada pessoa é um mundo completo, no sentido que cada pessoa faz parte de um microcosmo chamado família. Onde há sonhos próprios, momentos vividos em conjunto e vidas construídas com outras pessoas.

Várias histórias eram tristíssimas, como de uma mãe que perdeu seus dois filhos varões em guerras, restando apenas sua menina. Ou de um druso que perdeu seu filho, que fora o primeiro druso a chegar à determinada posição no exército. 

Durante a cerimônia, o primeiro filme que passou estava sem imagem, somente com som. Ao término da cerimônia ouvimos e cantamos o hino de Israel, e logo depois a organização pediu mais cinco minutos porque o vídeo seria repassado já que a família estava ali presente. Os israelenses são sempre apressados e impacientes, porém, mais do que 95% das pessoas ali presentes atenderam ao pedido de ficar um pouco mais. 

Achei isso a coisa mais impressionante da noite porque significou o quanto essa data importante é isso para o israelense, mais importante que características tão marcantes nele como a sua paciência limitadíssima.

Uma outra coisa que chama a atenção é que Israel guarda uma contagem de todos os soldados caídos em batalhas desde 1860, bem como o número de mortos em atentados terroristas a partir do estabelecimento do Estado. São 22.867 mortos em batalhas, e 2.443 mortos em batalhas
(fonte: http://www.mfa.gov.il/MFA/MFAArchive/2011/Israel_63_years_independence-May_2011.htm)

Ontem a noite às 20:00 houve uma sirene que tocou e todos se levantaram por um minuto em silêncio. Hoje ocorreu o mesmo às 11:00, dessa vez por dois minutos. Eu fui para a rua ver e a sensação é de se estar em um filme no qual o tempo para. É exatamente essa a sensação. Quase todos saem de seus carros, se levantam, e o silêncio só é quebrado pelo som das sirenes.

Logo depois desse dia tão difícil, Israel comemora o dia da Independência. É uma gangorra de sentimentos que faz qualquer um se sentir nauseado. Eu sinceramente não sei como conseguirei passar de uma tristeza tão profunda como o dia de hoje para uma alegria como o dia que se inicía já hoje a noite.

Talvez eu não saiba como fazê-lo, mas sei que o farei, como todos os judeus em todos os tempos. Sofremos sempre, mas sempre que nos dão a oportunidade ficamos felizes.

PS: Há muitos outros assuntos que quero abordar aqui, mas estas duas semanas senti ser mais importante passar minhas percepções sobre o coletivo israelense-judaico do que manter o foco na minha viagem. Espero em breve retornar aos meus assuntos incluindo algumas tristezas pessoais.

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