Minha idéia era contar a semana passada num único post, mas não achei boa a idéia e resolvi falar apenas deste dia tão importante.
Como o calendário judaico é lunar-solar os dias começam no entardecer do "dia anterior", portanto, hoje que é 2 de maio começou ontem no dia 1 de maio ao escurecer. Hoje é o Dia da Lembrança do Holocausto e do Heroísmo.
Obviamente eu já havia passado vários dias como este no Brasil, mas tudo relativo à religião e à cultura judaica aqui em Israel é muito mais forte, marcante e tocante. Ontem a noite, como é feito há algum tempo (não sei dizer quanto), há a abertura deste dia tão triste com uma cerimônia no Museu do Holocausto em Jerusalém (Yad Vashem).
Estiveram presentes dentre outros destaque o primeiro ministro Benjamin Netanyahu e o presidente de Israel, Shimon Peres. Eu fico impressionado com o Peres, com 87 anos de idade ainda tenha tanto envolvimento com a política em Israel e ainda seja lúcido e tenha posições atuais.
A cerimônia obviamente foi tristíssima. A parte que para mim foi a mais dura foi aquela onde sobreviventes contam suas histórias. Eu acho importantíssimo que todos estes registros venham sendo feitos. Há uma corrente ainda forte de pessoas que negam o ocorrido. Como diz o Maurício, mudar a história e transformar uma versão fantasiosa em verdade é o grande inimigo, o grande mal.
As pessoas costumam falar em 6 milhões de pessoas e achar uma cifra alta mas apenas uma cifra. Eu tenho duas observações sobre o número.
Primeiro é que cada um desta contagem eram pessoas com vidas, com família, com futuro, com sonhos e idéias. Elas podiam ser eu em qualquer etapa da minha vida. Podiam ser o Daniel ainda no colo da mãe, podia ser o Daniel com 4 anos de idade sem saber escrever, podia ser o Daniel com 7 anos escrevendo e jogando bola, podiam ser o Daniel com 13 anos fazendo o Bar-Mitzvá, podiam ser o Daniel com 17 anos fazendo o vestibular, ou ainda com 22 anos recém saído da universidade, ou com 35 casado com filhos, ou com 60 já avô e ainda, quem sabe, com 90 bisavô.
Não importava a idade, a profissão, a capacidade intelectual ou a incapacidade de relacionamento. Não importava se loiro ou careca, se usasse óculos ou se fosse atleta. Ser judeu era motivo suficiente para que fosse classificado como imprestável e que isso por si só era motivo para a sentença de morte. Esse preconceito, na sua essência da palavra, uma conceito prévio, que apenas media o direito à vida de alguém por seu credo é simplesmente inaceitável.
E cada uma dessas pessoas tinha um nome, muitos dos quais até hoje é impossível de se saber dado que todas a família, amigos próximos e quaisquer conexões com o mundo foram apagadas através da morte.
A segunda observação que faço é comparar o número de 6 milhões de judeus mortos com o número atual de judeus vivendo no mundo. Segundo a Wikipedia, atualmente vivem no mundo 13 milhões de judeus. Ou seja, se o número de judeus não tivesse se alterado no mundo, a quantidade de judeus mortas representa aproximadamente a metade da nossa população atual, ou 1/3 da possível população total se somada com o número de mortos.
Outra fonte que consultei diz que o total de judeus em 1939 era de 17 milhões. Após a guerra sobraram apenas 11 milhões. Imaginem o que é o aniquilamento de aproximadamente 33% de uma população, apenas baseada no ódio e na intolerância. Isso é simplesmente algo abominável.
Devemos ainda lembrar que quando eclodiu a guerra não havia um Estado Judeu e que muitos países fecharam suas fronteiras para receber refugiados de guerra, entre eles, os judeus. Estar aqui em Israel num dia como este de fato marca muito e deixa você muito mais consciente do seu papel no mundo.
Hoje tivemos uma cerimônia no Ulpan para a lembrança. E assim como em todo o país, às 10 horas da manhã fizemos 1 minuto de silêncio de pé no auditório. A sirene é tocada no rádio e todo o sistema de som do país toca em uníssono. Tudo pára. Os carros, ônibus, os trabalhadores não importam o que façam, as aulas. Tudo fica estático. Grande parte dos que estão aqui vêm de famílias que sofreram no holocausto.
Outro fato curioso é que a televisão exibe durante todo o dia (desde ontem a noite) uma programação dedicada a temas relacionados ao tema em questão. E as rádios só tocam músicas tristes e também ligadas ao tema. O país se veste de luto, mas de branco pedindo por paz.

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