domingo, 24 de julho de 2011

Conversas filosóficas num bar, um estudo raso sobre idiomas e um passeio por uma Jerusalém até então desconhecida

É muito comum escutar diversos idiomas sendo falados pelas ruas em Israel. Sempre que ando de van (aqui as vans são parte de um serviço especial das companhias de taxi que perfazem o mesmo itinerário de diversas linhas de ônibus), conto normalmente 4 idiomas. Sempre tem o motorista que fala hebraico, eu que falo português, e aí escutou pelo menos duas dessas: inglês, francês, russo, amárico(Etiópia), árabe, filipino, espanhol.

Porém, na última semana peguei uma van e escutei Yiddish. Foi a primeira vez que escutei yiddish aqui em Tel Aviv, apesar de saber que na comunidade religiosa isso é comum. A cena ao entrar na van foi a seguinte: Entrei e logo vi um senhor trajando vestes religiosas. Olhei um pouco atrás, e vi, no último banco, sua esposa e uma filha. 

Eles não estavam sentados juntos porque homens e mulheres não andam juntos no transporte coletivo. Vi que tinham 2 lugares ao lado das mulheres e um lugar vazio, individual, antes do último banco. Optei, por respeito, por sentar na frente. Mas fiquei pensando, e se os próximos 2 passageiros fossem homens, o que ele faria? 

Notei que o yiddish tem palavras em alemão, mas soa bem diferente do alemão. As palavras tem terminação menos acentuada e me pareceu que a língua fluía de maneira mais leve. Mas são apenas impressões, já que meu conhecimento de alemão se restringe a apenas 6 meses de curso. 

É muito comum os judeus religiosos (e com certeza os ultra-ortodoxos) não utilizarem o hebraico no dia-a-dia. Eles optam por outros idiomas pois consideram o hebraico sagrado e acham que ele somente deve ser utilizado nas orações.

Diz-se que há 5.000 anos atrás, a linguagem cotidiana dos judeus era o aramaico e não o hebraico, já sendo utilizado o primeiro idioma em pretensão ao segundo, pelo mesmo motivo. Ao longo da história dos judeus, diversos idiomas foram desenvolvidos. Por exemplo, o ladino, que foi desenvolvido na Espanha ou o Tatu, que surgiu nos montes Urais.

É interessante como ao longo de várias gerações, diversos idiomas foram desenvolvidos pelos judeus para se comunicarem. E o yiddish, que muitos consideram língua morta, está bem vivinha aqui em Israel em diversas comunidades religiosas.

Essa semana o Leo almoçou aqui em casa um dia, e em outro, eu almocei na casa dele. Aproveitando que ele tem televisão em casa, fui dar uma olhada nos canais que ele tem disponível. Há uma variedade enorme de canais, inclusive diversos estrangeiros, como canais da França, Alemanha, Suíça, EUA, Russia(esse com no mínimo 5 canais) e outros.

Mas o que mais me impressionou foi a seleção de canais do Oriente Médio, incluindo canais do Egito, Síria, Líbano, Jordânia, Marrocos, Tunísia, Arábia Saudita, Dubai, Irã e obviamente, também a Al Jazeera. 

Israel poderia escolher se isolar, mas é incrível como todos esses canais são oferecidos. Eu fico imaginando como uma companhia israelense conseguiu negociar com todos estes países o direito de transmissão.

O Mauricio gosta muito de notícias e política e conversa muito com israelenses sobre o tema. Por exemplo, ele fala que é sabido que a Arábia Saudita tem um comércio intenso com Israel, embora não admita. E mais, segundo ele, o Irã fica ameaçando Israel apenas para desviar a intenção do verdadeiro objetivo dele, exercer influência em todo o mundo árabe, com planos de atacar a Arábia Saudita, inclusive, se necessário.

Política é algo que a pessoa nascida no Oriente Médio faz com gosto. Difícil alguém não ter opinião sobre um assunto, difícil mesmo é alguém ter somente opinião aqui ! 

Na quinta encontrei com o Eliezer e o Rodrigo aqui em Tel Aviv. Eles vieram fazer o programa Marcha pela Vida, na qual um grupo sai do Rio e viaja até a Polônia onde visitam diversos campos de extermínio. Após a visita à Polônia eles visitam Israel. Acho que o roteiro é excelente porque vê que hoje há um porto seguro para todos os judeus do mundo que sofram qualquer tipo de perseguição.

Eu, Rodrigo e Eliezer. Apesar de feliz, não consegui sorrir na foto!

Ambos estudaram comigo no meu colégio primário (Talmud Torah Hertzlia), o Rodrigo na minha turma, o Eliezer em turmas antes de mim. Tive bastante contato com o Eliezer quando fizemos uma viagem para os EUA numa conferência de uma organização que frequentávamos.

Com o Rodrigo, eu bato papo sobre vida extra-terrestre e questões filosóficas desde que tenho 10 anos de idade. Lembro-me bem que sempre ficávamos debatendo esse tipo de coisa. Outra informação importantíssima sobre o Rodrigo, é que junto com outros dois amigos, vencemos o campeonato de futebol de recreio na escola. Era o time notadamente com menos habilidade da turma, era um time de operários.

Enquanto comíamos falafel e ainda nos acompanhava o Eliezer, falamos sobre um tema bem recente aqui em Israel, um protesto que se espalhou por todo o país. Um grupo grande de estudantes mobilizou muitas pessoas para protestarem contra os valores dos imóveis em Israel.

Esse é um problema sério no país. Nas cidades mais conhecidas, os preços dos imóveis sofrem aumentos sucessivos, por pressões vindas de diversos lados. Por exemplo, os estrangeiros que chegam com o câmbio valorizado em relação ao Shekel acabam pagando preços mais elevados impossibilitando que os locais comprem imóveis. E o mais absurdo dessa situação, é que muitos dos estrangeiros não moram aqui e nem alugam os imóveis, ficando eles inabitados.


Outro problema é que grande parte dos habitantes do país querem morar no centro. Locais como o deserto do Negev ao sul tem a densidade demográfica bem baixa em relação ao norte.

Eu acho que há uma série de medidas que o governo pode adotar para tentar melhorar as condições de mercado. Aumentar impostos para quem não mora no imóvel, exigir que os novos edifícios tenham uma quantidade mínima de apartamentos, com tamanho razoável, não permitir a compra pela mesma pessoa de diversos imóveis na mesma localidade, abrir uma licitação para projetos de novos edifícios em terrenos do governo, para pressionar a redução dos valores comercializados.

E oferecem uma infra-estrutura melhor para as cidades vizinhas aos grandes centros, fazendo com que as pessoas tenham opção de morar afastadas do centro mas com a possibilidade de alcançá-lo de maneira eficiente.


Voltando aos assuntos mirabolantes que discutimos desde nossos já distantes 10 anos de idade, retomamos a tradição, já sem o Elizer, mas na  companhia de inúmeras cervejas.

O Rodrigo me falou que anda lendo muito sobre psicologia. Eu acho curioso como tantos engenheiros acabam tendo interesse por outras áreas do conhecimento e acabam estudando outros assuntos.

Tenho amigos que se dedicam à sociologia, à antropologia e a outras áreas. Acho que faz parte da curiosidade humana, e também vejo como uma tentativa de flexibilizar o cérebro depois de anos de ciências exatas.

O Rodrigo me ingadou sobre o meu propósito em Israel e comentei sobre várias coisas que passam na minha cabeça. E ele me introduziu à teoria existencialista. Segundo ele, há 4 grandes problemas que angustiam o homem:

A existência é finita. Como a morte é certa, muitas pessoas tentam de alguma maneira fugir desse fato. Algumas profetizam a vida após a morte, outras se creem seres diferentes. De alguma maneira, todos tentam fugir dessa verdade. Outras trabalham muito para alongar o tempo aqui, ou a impressão de que fizeram muita coisa no tempo que tiveram.

A liberdade faz com que nós sejamos responsáveis pela nossa própria felicidade. Se somos responsáveis por nossa felicidade, não ser feliz implica em incompetência própria. Por isso, muitas pessoas preferem seguir líderes e terem suas vidas ditadas por alguma outra pessoa. Dessa  maneira, se você não é feliz, a culpa não é sua, mas de alguém que lhe impõe isso.

A vida precisa ter um propósito para valer a pena. Aí trabalhamos como loucos para fazer nosso tempo valer aqui, ou apenas trabalhamos, para que possamos pagar pela nossa estadia nesse mundo. Com a mesma saída, é possível administrar duas angústias. Outras pessoas se dedicam à religião como um guia de vida.

Filosofia no bar.
A vida é uma experiência individual. Nascemos sozinhos (se não somos gêmeos) e vamos morrer sozinhos (se não for num acidente coletivo), então todos têm medo de viver as próprias experiências e todos tentam sempre fazer tudo com outras pessoas ao redor.


Após uma breve análise, é fácil ver como todos ficamos angustiados com nossas escolhas. Somos os responsáveis pelo nosso futuro e basicamente é isso que eu vim fazer aqui em Israel. Olhar o meu futuro. Ver o que quero e o que devo fazer da minha vida e o que eu tenho como opção.

O Samy sempre me falou, você pensa muito, você tem muitas escolhas e fica na dúvida sempre. E é verdade. Qualquer um que se dê conta de que somos nós os responsáveis por como vamos viver, terá um peso grande nas costas.

Mas como eu não abdico da felicidade, vou tentar alcançá-la de qualquer maneira e não importa quantas vezes eu erre, ou o quanto isso me gere esforço, vou fazê-lo pois para mim não há alternativa a ser feliz.


Depois de toda essa conversa incrível, fui para a festa de um camarada do Ulpan. Ele comemorou numa antiga prisão. Eu já havia ido a este clube outra vez e não havia me ligado que aquilo era uma prisão. Eu achava que estava dentro de um edifício regular com uma área interna de respiração. De todos os modos, foi legal ter "descoberto" isso e aí sim curti o clube como devia fazê-lo.

Para fechar essa semana incrível, fui a Jerusalém com o Maurício. Fui a lugares que eu ainda não havia visitado, e apesar de ter visto lugares novos, ainda faltam lugares para visitar. Começamos o passeio indo à feira(shuk). O mercado de Jerusalém é muito variado, compramos uma burecas de café-da-manhã e fomos andando pelo shuk. Vimos religiosos fazendo as compras para o Shabbat, diversos turistas, e todo tipo de gente.

Frutas secas.

Temperos.

Vende-se de tudo lá, pães, peixes em conversa, vegetais, carne, derivados de leite, roupas, utensílios, frutas, grãos, especiarias. A feira é interessantíssima. Tem também vários restaurantes interessantes.

A jogatina rola solta no shuk iraki. O jogo em questão é gamão, bem popular no Oriente Médio.

Depois da feira, fomos visitar os bairros muçulmano e cristão da cidade antiga. Pelo bairro muçulmano vi muito do shuk árabe, eu ainda não havia entrado lá e não vi muito além do shuk.

A loja fica ao fundo, depois de uma escadaria.

O senhor em seu escritório, no final da escada.

Mas essa feira sim era a feira onde os árabes vão fazer as compras e tudo é mais barato lá.

Acho muito bonito estes trabalhos com vidro.
Xadrez.
Ainda no bairro árabe, andamos pelos telhados da cidade velha. Trata-se de um caminho que leva a uma Yeshiva(escola de estudos judaicos). É muito interessante ver a cidade antiga de cima, pelo teto dos bairros. Te dá uma outra perspectiva e te mostra a cidade de outros ângulos.

Caminhando pelos telhados da cidade velha.

Mesquita de Omar por outro ângulo. Daqui dá para ver os azuleijos que cobrem a esturtura.

No bairro católico entrei na igreja do Santo Sepúlcro. Eu fiquei impressionado com o tamanho dessa igreja. Ela tem diversos salões, em níveis distintos e cada um ornamentado de uma maneira diferente. É incrível como é tão irregular.

Fachada da igreja do Santo Sepúlcro.
Uma das diversas câmaras da igreja.
Outra câmara, num nível abaixo.
Passeamos depois pela igreja etíope, vimos uma igreja copta e passamos por diversas ruas interessantes.

Caminhando pelas ruas da parte católica da cidade, passamos também por tendas que vendiam artigos católicos. Vimos outras igrejas no caminho também. Eu já tinha feito esse caminho de noite, no festival das luzes. Mas de dia, tive outras perspectiva.

Igreja do Redentor.

Venda de artigos ligados ao cristianismo.
Passando entre os bairros, voltamos ao bairro judaico. Eu sempre vou ao Muro das Lamentações, quando estou em Jerusalém. Dessa vez foi a primeira vez que eu fui na sexta na cidade antiga. Sexta é o dia em que os muçulmanos se aglomeram para as preces, e percebi que a polícia fecha o caminho para a esplanada das mesquitas nesse dia. 

Enquanto nos aproximávamos da entrada, que fica bem perto da entrada para o Muro das Lamentações, um guarda começou a me avisar que não era para entrar, já que eu era judeu. Não sei como ele adivinhou, mas segui seu conselho.

Corredor que segue após o cardo romano no bairro judaico.
No corredor da foto acima há inúmeras lojas, uma delas tinha este quadro em exposição. Note que todas as pedras do Muro das Lamentações estão desenhadas por texto, provavelmente algum trecho de algum escrito sagrado.
O passeio terminou comendo num restaurante de comida caseira na qual comemos diversos vegetais recheados. Tinha de tudo e era bem saboroso.

Memulaim - recheados.
Meu tempo aqui é próximo a três semanas, o Ulpan terminou para mim nessa semana que passou e agora o planejado é começar a fazer algumas viagens.

Um comentário:

  1. Levi,
    Fico contente de ter encontrado o Rodrigo por aí. Lembro de suas conversas com ele desde a infância! Fico orgulhoso tb de ter meu nome citado neste blog de tanta expressão!!! hehe...
    Muito, muito bom seu texto, mais uma vez!! Em breve nos vemos pessoalmente para ouvir tudo isso ao vivo! Abs
    Samy

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