domingo, 17 de julho de 2011

A luta pelo idioma

Como Israel é um país pequeno, há uma tendência de dividir os espaços urbanos em diversas cidades e não em diversos bairros como vemos no Brasil.
Na concepção de alguém que vem de uma cidade grande, num país grande, Tel Aviv é uma cidade pequena. Mesmo se levássemos em consideração todas as cidades ao redor, esta conurbação não me pareceria tampouco grande.

Se essa rua fosse minha?!?!
E ainda mais, visto que grande parte das atividades em Tel Aviv acontecem numa região reduzida, muita gente utiliza bicicletas e motos tipo scooter para andar por toda a cidade. As bicicletas muitas vezes tem um motor elétrico acoplado. E além disso, há uma terceira alternativa. Uma espécie de patinete também motorizado com base de madeira.

O ponto positivo é que todos são transportes que não emitem poluição. O ponto negativo é  falta de ciclovias ou similares para que os veículos andem pela cidade. Por este motivo, eles trafegam tanto pela rua quanto pela calçada. Na rua há um problema para eles, visto que a falta de respeito no trânsito é enorme e eles sofrem riscos. Quando andam pelas calçadas, transferem os riscos para os pedestres. 

Já falei muito disso no blog e andei conversando com vários israelenses. Todos são unânimes em dizer que isso é característica de Tel Aviv. O que não entendo é que não vejo esse lado mais apressado dos negócios nesta cidade, logo não compreendo a pressa eterna deles.

Esse site aqui mostra como toda bicicleta pode ser adaptada para funcionar mecanicamente e com motor elétrico: http://www.ecoride.co.il/en/
Já esse site fala sobre os tais patinetes motorizados: http://www.kooperscooter.com/

Outro fato curioso é que muita gente tem cachorro na cidade, e várias vezes vejo eles levando os cachorros em cima dos patinetes e das scooters. Eu acho tão curioso quanto perigoso para os bichanos.
 
Isso aqui é feijão enlatado, ou melhor, Tschulent. A base para a feijoada judaica, prato típico das famílias européias no Shabat. Eu consegui achar em lata, provei e recomendo.

Um ponto que eu acho muito interessante em Israel é a independência das mulheres. Obviamente numa sociedade com tanta gente diferente, de diversas religiões diferentes e mesmo dentro da religião, (cristãos aqui temos por alto: católicos apostólicos romanos, ortodoxos armênio, grego e russo, copta sírio e por aí vai; temos diversos sabores de judaísmo e sobre os muçulmanos não sei o que são aqui. Além disso ainda temos os Bahai) com diversos sabores, é muito difícil generalizar qualquer conceito.

Aqui em Tel Aviv vejo mulheres tendo uma vida verdadeiramente independente. Elas dirigem motos por todos os lados, já vi muitas policiais mulheres e até entregadora de pizza. Isso é algo bem marcante, pelo menos aqui na cidade. Eu acho muito interessante a independência das mulheres, elas vão atrás do que querem e não esperam por ninguém dando as orientações.

Banco Central de Israel, em Jerusalém. O presidente atual é Stanley Fischer, um americano que fez Aliyah justamente para ser o presidente do Banco.
Se tem uma coisa que eu adoro em Israel é o humor relacionado a religião. Por exemplo, quando os judeus saíram do Egito, a última praga que se abateu sobre os egípcios foi a Morte dos Primogênitos, ou em tradução literal do hebraico, Praga dos Primogênitos (Makat Bechorot - lê-se berrorot).

Então, muitas vezes quando o filho mais velho da família é muito bagunceiro ou traz muitos problemas, eles se referem a isso como Makat Bechorot. Para quem a vida inteiro usou a conotação do nome com uma praga, escutar isso como denominação para esse tipo de comportamento é muito engraçado.

ACM em Jerusalém.

Outro ponto que não sai da cabeça de quem começa a morar num novo país é o idioma. Toda hora surge uma oportunidade de uso, de comparação, a necessidade de uma explicação, o entendimento da maneira de usar. E também sempre nos perguntamos se somos fluentes, e o quanto somos fluentes.

Há várias maneiras de medir a fluência numa língua e não há um consenso sobre o assunto. Eu sempre achei que um bom parâmetro era discutir e argumentar no idioma. Uma pessoa que sob pressão consegue formular idéias contra um ponto que discorda, está abrindo mão da precisão da língua materna para tomar parte no debate e estabelecer seu ponto de vista.

Outro fator que acho também muito interessante é sonhar no idioma. Na semana passada tivemos uma aula com música e a música justamente falava sobre um imigrante que fazia tudo em hebraico, mas seguia sonhando em espanhol.

Eu, quando morei na Argentina, sonhava várias vezes em espanhol, tinha discussões nos sonhos em espanhol (e claro, também na vida cotidiana!) e embora achasse esse um fator também de fluência na língua, achava mais que tinha que ver com a influência de tudo o que você escutava durante o dia.

Agora, acho que a maior prova de fluência em uma língua é contar nessa língua. Nunca contei em nenhuma outra língua que não fosse em português. Não digo contar as pessoas em voz alta ou falar os números. Digo fazer contas num mercado, na hora de pagar, ou na hora de conferir o troco. Isso, para mim, é impossível fazer em outra língua.

Diferentemente do Brasil, as pessoas aqui começam a trabalhar muito cedo. É cultura do país que as pessoas queiram já fazer seu dinheiro, e como o exército começa para todos quando eles tem 18 anos, eles já sabem o que é trabalhar desde cedo. Isso traz um senso de responsabilidade muito legal e o israelense adquire experiência logo.

Talvez esse seja um fator bem importante para eles serem destemidos ao abrir novos negócios ou tentar novos caminhos. Agora, como todos começam cedo e normalmente sem grande instrução nos negócios, muitos deles têm um ar não-profissional. As lojas tem normalmente uma ou duas pessoas atendendo (aliás, como há uma falta de pessoas no país e a mão-de-obra é cara, todos os lugares parecem ter menos atendentes do que o necessário), isso faz com que o mesmo camarada que prepara o sanduíche seja o caixa. Ou seja, ele manipula o alimento e o dinheiro sem o menor ressentimento. Até agora só vi um prédio com porteiro, pelo mesmo motivo da escassez de pessoas.

Nessa semana vi algo bem parecido ao que sempre vi em todas as festas organizadas pelo meu colégio. A completa falta de respeito com os alunos. Eu me lembro bem que era difícil algum evento organizado pelo colégio começar com menos de 2 horas de atraso. Não foi isso o que aconteceu no Ulpan, mas a falta de profissionalismo passou perto.

Na semana passada fomos avisados de que nossa professora não poderia seguir com as aulas. A professora é o que faz uma aula boa, impõe o ritmo e de acordo com a intimidade dela com a turma, pode exigir mais e cobrar mais deveres de casa. 

A diretora entrou em sala e nos comunicou que o ministério da educação havia pedido que ela e outra professora deixassem o curso durante o verão para ministrar classes num projeto novo na universidade de Tel Aviv para imigrantes que entrariam na universidade. Do ponto de vista profissional das professoras, esta é uma oportunidade incrível. Porém, não me pareceu sequer razoável que se mudem as regras no meio do jogo.

A primeira mudança foi que a professora não seguiria dando-nos classes e segundo que teríamos um dia a menos de aula por semana. Ambas as medidas modificam exatamente o que eu contratei: Aula com determinada professora,  5 vezes por semana. Essa falta de profissionalismo que afeta o cara que faz o sanduíche, também afeta as aulas no Ulpan.

No sábado fui assitir ao primeiro jogo do Brasil em um quiosque, por falta de opção. Imaginem o que é assistir a um jogo de futebol, numa televisão de 20 polegadas, dentro de um quisoque, com diversos imigrantes ilegais do lado. Eu diria, educadamente, que foi uma experiência antropológica. 

Era impossível prestar atenção por mais de 5 minutos seguidos. Todos berrando, só querendo saber da farra. Ali vi uma coisa curiosa e fiquei me perguntando o que gerava aqui.lo Tinham vários brasileiros, notadamente sem a mesma instrução que os imigrantes legais, com namoradas israelenses. 

Eu fiquei me perguntando se aquilo era algo determinado pela cultura israelense onde as diferenças socio-econômicas não influenciam tanto a inserção das pessoas nos grupos. Mas depois de pensar, acho que a língua funciona como uma barreira para esclarecer a situação. Não ter o domínio do idioma, faz com que conversas mais profundas não existam. E assim, o convívio é leve e harmonioso. Talvez essa seja a solução para brigas em casais do mesmo idiomas, não discutir nenhum assunto relevante.

Um fator que me chamou muito a atenção aqui é como diferentes cidades do mundo lidam com a mudança de estações. Até eu ter ido morar em outras cidades, eu nunca havia percebido uma mudança grande de vida entre verão e inverno. No Rio eu sempre fui à praia o ano todo, saía o ano todo, a única coisa que marcavam as estações eram as férias e os festivais.

Mas em cidades com a mudança de estações vemos coisas bem mais marcadas. Por exemplo. o verão em Curitiba é vazio, já que todos descem para as praias, no inverno a cidade é mais cheia, apesar do frio. Em Buenos Aires, a vida social não cessa no inverno, no verão parece que muita gente viaja, e há muita coisa que acontece próxima às cidades de veraneio.

Aqui em Tel Aviv notei que há muito mais gente na rua no verão, e muito mais atividades ao ar livre, como era de se esperar. Desde que começou o verão, parece que não há um fim de semana sem alguma coisa interessante para fazer. Nesta quinta-feira fomos assistir a uma ópera ao ar livre. Eu estimo que haviam pelo menos 30.000 pessoas assistindo ao espetáculo.

Ópera ao ar livre com os prédios de Tel Aviv ao fundo.
A obra foi A flauta mágica, de Mozart, se alguém não conhece a obra pelo nome, vão lembrar do Edson Cordeiro cantando aquela música junto com a Cássia Eller. Todo mundo tentou ao menos uma vez reproduzir aquelas notas bem difíceis. Fora esse fato curioso para brasileiros, outro fato que eu achei interessante foi a peça ter sido apresentada em alemão, o que representa muito por toda a carga histórica.


Outra coisa legal que fazem aqui é que vários bares perto da praia armam um grande espaço. Fui a um lugar chamado Clara, um espaço aberto enorme, com vários sofás, bares, a noite funciona como boite, de dia também, mas num estilo diferente, com piscina, escorrega, touro mecânico. O clima é bem legal e as comidas que servem são típicas de verão, como por exemplo, a melancia servida com queijo bulgarit (estilo búlgaro).

Na sexta passei o shabat na casa dos pais da Keren. Eles moram perto de Jerusalém e fomos
eu, a Keren e o marido dela. Os pais dela são imigantes do Marrocos e o jantar foi tipicamente marroquino. De entrada comemos peixe,  o tempero vinha do recheio que ficava dentro, com amêndoas e outras ervas. Depois veio um frango recehado com arroz, trigo e diversas outras coisas. 

É muito interessante essa forma de fazer os pratos, fica com um gosto bem diferente do que estamos acostumados a comer. Na mesa, acompanhando isso tudo, diversas saladas. Gostei muito de uma com tomates que era apimentada. Parece que estava num suco de limão. 

Tomamos o vinho que o próprio pai da Keren faz num vinhedo próximo a casa deles. Aliás, a casa era bem diferente. Era um prédio que você entrava e tinha um pátio central em desnível. A casa dos pais da Keren ficava no platô inferior, e tinha dois andares. Achei muito legal o conceito, bem diferente do que estamos acostumados.

Consegui entender parte das conversas à mesa, uma delas, bastante curiosa, foi o fato de os pais da Keren terem sido considerados sobreviventes do holocausto. Isso, porque eles moravam no Marrocos este era protetorado da França, que havia sido dominada em parte pelos nazistas. 

Aproveitando o sábado, Mauricio e eu fomos ao museu de ciências de Israel. O museu é bem legal para as crianças, muito interativo. Mas o motivo que nos levou ao museu foi a exposição de invenções israelenses.

"Ciência, essa é toda a história".

Tem várias invenções bem legais, como por exemplo, a memória EPROM, utilizada em todos os computadores do mundo hoje em dia. Eu queria ver alguém defeder um boicote sério contra Israel e deixar de usar equipamentos eletrônicos que utilizassem a EPROM.

EPROM, componente básico de diversos dispositivos eletrônicos modernos.

Outras invenções que me chamaram muito a atenção foi o Pen Drive(San Disk), a trava MUL-T-LOCK, o Kinect(sistema que a Microsoft usa) e também a empresa Better Place, que pretende mudar o modelo de automóveis no mundo. Transformando eles em elétricos, com postos de troca de bateria ao invés de carga de combustível, diminuindo drasticamente a dependência do petróleo.

Vai ser assim que nossos carros vão ser abastecidos no futuro. Posto de recarga da Better Place.
Agora me resta apenas um mês aqui em Israel e não estou ansioso para voltar. O verão aqui, embora quente, tem um clima todo especial e toda semana há alguma novidade para conhecer. Meu hebraico tem melhorado bastante, e embora eu cometa diversos erros, já consigo me comunicar e conversar sobre coisas interessantes. Foi o caso do que aconteceu na casa da Keren, já que pude conversar com o marido dela e com o pai e a mãe dela. 

O idioma, sem dúvida, te integra a sociedade, e não somente ele, mas estar inserido nas notícias e no dia-a-dia, te faz mais parte da sociedade.

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